11 setembro 2009

Porquê confessar-se?

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Se bem que ainda tenho outros dois temas para falar, e penso fazê-lo estes dias, resolvi responder a este último desafio, por ser na semana santa, que é um momento em que muitos cristãos se aproximam da confissão. Poderia falar muitas coisas sobre o sacramento da confissão, ou da reconciliação - pessoalmente prefiro esta designação -, das suas origens, o desenvolvimento porque foi passando ao longo da história até à forma em que chegou a nós hoje, ou como se desenvolve esta celebração. Mas acho mais importante focar o ponto principal, porque nos confessamos?

É, de todos os sacramentos, provavelmente o mais difícil de entender e o mais criticado. Acho que também, infelizmente, más experiências com alguns confessores ajudam muito a isso. Com coisas que tenho ouvido, não me espanta que haja pessoas que ficam 20 anos sem se confessar! Num momento que já de si é de fragilidade e manifestação da própria vida, ser sujeito a críticas condenatórias ou interrogatórios morais é muito triste. Neste caso, acho que devia ser mais claro que as pessoas deveriam saber que têm o direito de parar a confissão e fazer queixa desse sacerdote a um seu superior. Talvez nisto apresente um tom mais duro, mas acredito muito que a reconciliação é um momento de acolhimento, paz e perdão, e que esta atitude se deve manter sempre, mesmo nos casos particulares em que o confessor achar que, para bem da pessoa, deve ser mais exigente com ela.

Um outro aspecto que normalmente vem apontado à confissão é o facto de ser suficiente confessar directamente a Deus os próprios pecados e assim ter o seu perdão. Estou de acordo, porque também acredito que Deus ouve e atende as orações e os pedidos que lhe fazemos e, se lhe pedimos perdão, Deus perdoa-nos, como é próprio do seu modo de ser e agir connosco. Mas concordar com isto não quer dizer que seja suficiente, e explico porquê.

O pecado não é ter faltado a uma regra do catálogo das nossas virtudes e do nosso bom comportamento. É falta de amor, que é o egoísmo: sempre que não amamos, que fomos egoístas, que fizemos de alguém objecto do nosso interesse, que não respeitámos a beleza de nós próprios e do mundo, no fundo, quando fomos mais pequenos do que os gestos amorosos nos pedem. E quando em todas estas coisas temos consciência de que somos responsáveis pela falta de qualidade de qualquer acto, palavra ou pensamento. Quando amamos menos, ou quando pecamos, não é só a minha própria consciência que fica mal, mas alguém ou alguma coisa do mundo perdeu algo com a minha falta de amor. As primeiras comunidades cristãs tinham este aspecto muito presente e, por isso, a confissão e o perdão eram públicos, porque o pecado de um afectava a todos. Entretanto, a confissão foi-se tornando algo mais privado até chegar ao que temos hoje, em que o padre é o representante da comunidade e das pessoas a quem directa ou indirectamente, como expliquei, deixamos de dar o nosso amor. Por isso, em relação a este primeiro aspecto, é muito mais forte o facto de ter alguém concreto a quem expor os pecados.

Ligado a isto, o facto de ter de exprimir verbalmente os aspectos mais "escuros" da nossa vida, obriga-nos a um exercicio de verdade connosco mesmos e reconhecer que há coisas em nós que não nos fazem bem e não nos libertam. E essa verdade faz-nos estar arrependidos e querer mudar. Não há verdadeira mudança na nossa vida se um dia não temos a coragem de enfrentar aquilo que não gostamos em nós. E podemos arrastar-nos meses e anos com angústias que poderíamos ter entregue e abandonado mais cedo. A verdade liberta.

Deixo para o fim aquilo que acredito ser o aspecto mais rico e central da confissão. Não é fazer e dizer uma lista de pecados, mas é sobretudo receber o perdão e a paz. Creio que há poucos dons que desejemos com tanta intensidade. Perdoar-nos a nós próprios e aos outros, ser perdoado por alguém é das experiências que mais nos constroem como pessoas. E a paz, no nosso coração, na nossa consciência, nas nossas relações. E sendo dons que Deus nos dá, então são-nos dados em modo superabundante. O sacerdote ouve os nossos pecados e faz de instrumento visível do acolhimento, do perdão e da paz que Deus dá.

Continuo sempre a insistir no facto de que não somos só pensamento. Somos palavras, gestos, toques, sons. Confessar-se só a Deus não nos ajuda a viver o perdão em modo completo e abençoado. Uma palavra de compreensão, ajuda e salvação pode ser muito forte no reconstruir e recomeçar a nossa Vida. Recomeçar, mais livres, mais perfeitos, é por isso que nos confessamos.

Último Tema

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Se eu fosse enviado para um país onde não houvesse internet e tivesse que fechar o Blog, qual seria o tema que deixaria para o final.

Deixei ainda alguns temas para trás, mas que irei tratar logo que possa, porque exigem mais algum conhecimento e reflexão, mas este trata do que me move agora e por isso é mais fácil. Ou não... Especialmente porque estou a pouco mais de um mês da minha ordenação sacerdotal e os sentimentos são complexos e intensos. Por isso, escrevo sobre aquilo que sempre me tocou mais: o Acreditar contra tudo o que pode suceder. Isto é um testemunho muito pessoal.

Sempre vim a dar-me conta, nos últimos anos, do facto que não nos podemos iludir em relação à nossa própria bondade. Porque ela existe, se não, a Vida não faria muito sentido. Não consigo imaginar a minha Vida sem ser orientada para coisas grandes e bonitas. Acreditar nisso faz-me ter a confiança necessária para perceber a minha falta de perfeição e, ao mesmo tempo, a perfeição que sempre tive.

Nada é linear em nós, seja estados de espírito, seja aquilo que acontece na alma por causa de pessoas e situações que nos questionam. A nossa condição é uma fronteira e um limite entre poder e sofrer, domínio e derrota, sonho e desilusão. Aquilo que mais me cansa é saber tantas coisas sobre o Bem e dar-me conta que fico muito longe de o fazer presente. Presente actual em mim, ou dá-lo como presente ao que acontece em cada dia.

A fronteira é lugar de passagem, não nos deixa ficar donos de nós próprios e dos acontecimentos. E sempre que o tentamos fazer, imediatamente nos damos conta que há muitas coisas que deixamos escapar, ou que fogem de nós. Isso exige um esforço e um sofrimento para perceber que a liberdade é um desafio constante. Uma surpresa irritante.

Se a nossa condição é viver neste espaço e neste tempo que passa e não conseguimos controlar, seríamos muito desgraçados se nos resignássemos a deixar andar o relógio e ir cumprindo mais ou menos bem o concreto de cada dia. No fundo, sem termos nada de sólido, nada que permaneça além das mudanças do vento, das mãos que se fecham ou dos caminhos que deixam de esistir. E essa base sólida está em nós e é a bondade do nosso coração.

Nunca conheci uma pessoa má, e acredito que nunca virei a conhecer. Há pessoas, sim, que a Vida as fez defendidas, amarguradas, sem distância para pensar além do imediato. Que as fazem viver em mundos tão estreitos e angustiosos que precisam explodir para sobreviver.

E esta Bondade Universal é um dom. Como se o facto de estarmos vivos resultasse deste magnífico acontecimento de termos mergulhado no Amor, e nunca mais poderemos apagar as marcas que isso nos fez e nos continua a fazer. Temos uma perfeição incompleta, uma liberdade contraditória, mas também temos a perfeição que é dada e que não depende de mim.

Acreditar nesta perfeição faz-me melhor, porque me faz olhar como sou. As nossas experiências de Amor por alguém são fonte de vida para o mundo. E o Amor de Deus será então está fonte mais segura que tudo. Quem gosta de si, ama a Deus. Quem ama a Deus, gosta de si.

Porque para Deus somos os mais importantes, e por isso, acarinhados, sustentados, acompanhados. A marca desta presença é o desejo que todos temos da felicidade. E quando não a encontramos, quando a Vida nos tira todos os motivos para pensar nisso, então é a nossa parte sólida que se revolta. Chega de sermos pequeninos e confusos. Há sempre um ponto de partida um gesto que seja capaz de criar harmonia no caos, e uma luz que parta toda a escuridão. Eu e Presença de Deus, este acreditar que vence tudo e transforma todas as coisas.

Despojamento

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Regresso aos temas que me vão sugerindo, estes últimos dias ainda não tinha tido tempo para reflectir um bocado sobre eles, e hoje escrevo sobre o despojamento, que pessoalmente é um tema que me questiona muito!

A primeira imagem que me veio foi sobre ouvir histórias de jesuítas de antigamente que, quando iam para a teologia, que se fazia também no estrangeiro, levavam com eles apenas uma mala de mão com tudo o que precisavam. Também é verdade que na altura se usava a batina e bastava uma para vestir enquanto a outra estava a lavar =). Mas quando vim para Roma mandei por transporte nove volumes de coisas... e que é muito, talvez exagerado, vendo colegas meus que chegavam com duas malas, já que vinham de longe. E cada vez que vou de férias, é uma dificuldade enorme gerir os 20 kg de peso a que tenho direito! Sempre me pergunto nessas alturas porque preciso de tantas coisas?

A vida de hoje, estou convencido que nos obriga a ter muitas coisas: computador, roupa para diversas ocasiões, livros, objectos que nos fazem falta, para além daqueles que levamos connosco para todo o lado. Creio sempre que o grande desafio está no modo como nos relacionamos com as coisas, sobretudo como a falta de determinada coisa pode perturbar a minha paz interior. Tudo o que é perturbação interior é sinal de falta de liberdade. Talvez esse seja o critério que me pode ajudar a ter mais claro o que é essencial e o que é acessório. Se tenho medo de perder algo, é porque, de certo modo, a minha felicidade não está a passar pelo caminho melhor.

Tenho o hábito de fazer peregrinações, porque me ensinam muito sobre a Vida. A recomendação que se faz para quem caminha vários dias com a mochila às costas é: levar 10% do próprio peso. Tudo aquilo que for a mais, durante o caminho vai ser um fardo cada vez mais difícil de levar. E é bem verdade! Por duas vezes levei peso a mais e reparei que, no fim, levei coisas que não cheguei a usar e paguei um maior cansaço por isso. Aprendi que aquilo que é a mais não me ajuda a caminhar, distrai-me, torna-me mais lento, fico menos livre para olhar o que está à minha volta sem me estar a lamentar.

É por isso que o despojamento é algo irresistível para uma vida de maior qualidade. E despojamento pode não ter um significado de austeridade ou privação voluntarística. É uma questão de ir percebendo que uma vida mais simples me deixa mais espaço para a alegria e para estar comigo e com os outros de uma forma mais luminosa. Faz-nos menos calculistas. Mais agradecidos.

O despojamento material e psicológico estão ligados. Talvez seja mais fácil ter noção daquilo que posso ou não posso ter, o que ajuda à minha sobrevivência, ao meu trabalho,à minha cultura e ao meu divertimento. Mas acredito que fazer o exercício de um dia deixar de ter algo, ou não comprar alguma coisa, ou então dar a quem precise, mesmo que doa cá dentro, isto prepara o coração para uma atitude mais aberta e livre. Se me habituar a perceber nas coisas materiais que o essencial chega para aquilo que preciso, também irei perceber que a Vida tem outro sentido e outra alegria se for mais simples, mais directa, sem tantas distracções.

Isso também vale para o despojamento no modo de nos relacionarmos com os outros. Se não calcular propostas e respostas, se for eu próprio no modo como me dou, talvez me exponha mais, mas sou mais transparente. É tão bom não sermos pessoas complicadas!

O sentido da dor

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Lembro-me de ter lido, já há vários anos, um livro de François Varillon, onde ele falava deste tema. O episódio passava-se entre ele e uma jovem que estava já em fase terminal de cancro e que lhe dizia: "Não percebo e não consigo aceitar". O padre respondeu: "Eu também não percebo e não consigo aceitar". Foi uma revelação para mim, porque diante de questões tão difíceis, o melhor é estar calado e não fazer discursos fáceis que acabam quase sempre, na minha opinião, por ser um insulto a quem sofre, como se alguém falasse de fora e desse uma solução irreal ao sofrimento.

A pergunta é se a dor é necessária para significar a Vida, ou se é uma necessidade do homem. Sim, é uma necessidade, simplesmente não nos podemos iludir e pensar que a Vida poderia ser perfeita, que estamos livres de todos os perigos e protegidos por uma espécie de mão divina que evita o mal. Não é fácil falar destes temas, sem nos perguntarmos o porquê, se no fundo a criação é má, se Deus abandonou o mundo, se estamos a ser castigados. É o drama que vemos todos os dias nas notícias, o sofrimento causado e a dor que atinge aqueles que não têm culpa. Estamos tão habituados a isso que não nos choca o terremoto nas Filipinas ou a guerra no Congo. É pena que aconteça, mas não podemos fazer nada. Já nos questionamos mais com a doença de alguém conhecido ou um familiar. Finalmente, não suportamos e ficamos aterrorizados com ideia de confrontar a própria dor na primeira pessoa...

A dor e o sofrimento fazem parte da Vida. É inexplicável e causa-nos tristeza e desespero. De onde vem e para que serve? Há um sofrimento causado pelas nossas más escolhas, que nos ferem a nós próprios ou aos outros. Mais cedo ou mais tarde, sabemos que teremos as consequências da nossa falta de verdade e do nosso egoísmo. A um nível mais global, a liberdade de outras pessoas também causa sofrimento, e quem tem mais poder abusa dos mais fracos. E existe o nível da própria natureza, as células e os vírus que destroem o corpo, ou os fenómenos naturais que destroem em grandes dimensões.

Custou-me sempre entender esta frase: a origem do mal e da dor está na nossa liberdade limitada. Em relação a mim próprio e aos outros, consigo perceber o que isso quer dizer. Tenho mais dificuldade em perceber o porquê do sofrimento causado por outras potências, humanas ou naturais, quando há inocentes que sofrem. A ciência, a política, a economia e a sociologia poderão dar muitas justificações. O mal simplesmente acontece e é na minha vida que o terei de enfrentar. Como, com que intenção? Para perder tuda na mesma, quando chegar o fim? Precisamos de outras respostas.

Não falo explicitamente da resposta da fé e da religião. Prefiro dizer aquilo que qualquer pessoa, crente ou não crente, poderá perceber. A resposta da fé é a que toma este mesmo dinamismo e a formula numa linguagem própria.

Frente à dor, como a condição natural e inevitável da Vida, sou desafiado a dar uma resposta. Que pode ser fugir, ficar indiferente, desistir, lutar, aceitar, amar... Na minha vida passei por todas estas respostas. Há uma atitude que me iluminou mais: Diante da dor e da morte, como poderei estar como sou, como posso fazer a minha casa num mundo que não percebo e me custa aceitar? Falei há tempos da imagem do labirinto. A questão não é tentar uma saída frustrante do labirinto onde nos encontramos, mas sim descobrir o modo de o habitar como sou e com o muito ou o pouco que tenho para dar.

Todos os acontecimentos são uma expressão da Vida. Tal como as alegrias mais contagiantes de ter encontrado o que se quer, de poder tocar com as mãos o tesouro procurado, também a dor nos fala da mesma força da Vida. É nos extremos que a Vida se mostra com toda a sua força e potência. É mais fácil perceber isto na alegria, mas a Vida aparece-nos à frente nua e crua, violentamente, quando vemos que a podemos perder e não podemos consentir isso. É o momento de decidir amar com todas as forças o que me é dado viver. É o dom mais precioso que tenho, e quando este é tão frágil, mais o devo amar. É o amor incompreendido, que vai além de si, que é paradoxal, que pode construir a casa no labirinto escuro em que vivo. É este a única fonte de luz.

Na linguagem da fé, Deus não é a origem do mal, nem Aquele que castiga o nosso egoísmo. A liberdade para Deus é tão importante, que Ele não consegue intervir com milagres, seria tirar-nos as possibilidades radicais da existência, a nossa marca divina no mundo. Deus é a força do amor que nos ajuda a viver o que vivemos. E esta força nunca ouvi dizer que algum dia não tivesse sido dada a quem a pediu. Jesus sofreu e morreu de forma muito violenta e injusta. Deus não fez nada para o ajudar. A humana-divindade de Deus teria de estar identificada connosco em tudo. Mas o Amor do Pai acompanhou Jesus e esteve presente com toda a força, até ao fim. Um Deus que não sofresse connosco não teria nada a dizer-nos sobre a Vida.

(Ainda sobre a questão da ausência de Deus nas contrariedades da Vida)

A Vida não é fácil, não só por causa das nossas próprias experiências de desilusão, solidão, desencanto, medo, mas também pelo panorama devastador que cada dia é posto diante de nós nas notícias. A ponto de nos deixar sem palavras e perguntarmo-nos como é possível que o mal tenha uma força tão grande, parecendo capaz de orientar e controlar a própria história.

No fundo, todos percebemos o que é o bem e o amor que podemos fazer e que poderia acontecer. Mas é um facto que isso não acontece. Somos quase desafiados ou constringidos a acreditar no bem acima de toda a razoabilidade, até haver forças... até ao momento em que não resistimos mais e atiramos a toalha ao tapete.Ponto final. Mais vale preocupar-me com um equlíbrio de vida possível sem utopias. O meu mundo tem fronteiras muito bem marcadas, onde só entra quem e o que eu quiser. Mas não sou impermeável ao mundo, tudo toca e molha a minha pele, e de repente estou diante de um castelo cheio de brechas na muralha, sem me poder defender. Podemos viver assim toda a vida...

Um professor meu descrevia a vida de hoje como um gigantesco labirinto. E a grande questão não era como encontrar o caminho para sair dele, mas sim encontrar o modo de o habitar, fazendo dele a minha casa. Aprender a perder-me, mais que procurar desesperadamente saídas irreais. Acredito que não podemos olhar o facto de experimentarmos dificuldades como algo que não deveria acontecer. Estaríamos a iludir-nos. A questão está em colocar-me na dificuldade e fazê-la minha, num exercício de verdade que pode doer. Mas só posso mudar aquilo que conheço profundamente, é a dificuldade que me fará crescer em criatividade e serenidade. Olhando a nossa história, vemos que as crises foram momentos essenciais para sermos o que hoje somos. Mas não nos lembramos disso muitas vezes...

Clonagem

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Retomo estes dias a reflexão acerca de alguns temas que têm sido propostos. A clonagem é um dos temas de fronteira, que ainda se encontra em fase de desenvolvimento. Tenho alguma dificuldade em me referir a alguns aspectos da clonagem, principalmente porque não é a minha área de formação e não sou especialista nos procedimentos técnicos e na linguagem mais correcta a ser usada.

Por isso, aquilo de que parto é do que estudei nas aulas acerca da sua legitimidade ética e moral, e que impacto pode ter no nosso modo de ver e entender o ser humano, quer a nível cristão, quer a nível pessoal, independentemente dos temas religiosos, já que entendo que a pessoa humana tem um valor acima de qualquer visão particular.

A Igreja tem vindo a pronunciar-se sobre estes temas, e o organismo onde se reflectem estas questões é a Congregação para a Doutrina da Fé. Os documentos produzidos por esta Congregação estão disponíveis online e podem ser consultados por quem quiser. Gostaria de dizer que, quando se comentam as posições da Igreja, há já uma certa vontade de criticar sem ouvir os argumentos. Uma forma saudável de diálogo é ouvir e tentar perceber a outra parte, e creio que ler primeiro os argumentos propostos é o primeiro passo para uma discussão aberta e intelectualmente honesta.

Não quero dizer que também da parte de alguns sectores ou pessoas dentro da Igreja esta atitude esteja sempre presente, mas quer de uma parte, quer de outra, deve existir um equilíbrio saudável que se tem sempre de buscar, medos que se têm de perder, não partir de frases feitas e preconceitos infundados, mas partir do concreto e do desejo de fazer aumentar as coisas que são essenciais e positivas.

Nestas questões de bioética está presente o tema fundamental da dignidade da pessoa humana e do seu valor inquestionável. A base de qualquer discussão é aquilo que se entende por pessoa humana, e sem chegar a um acordo mínimo sobre este aspecto, as opiniões serão sempre divergentes. Quanto a isto, sigo fundamentalmente aquilo que a Igreja afirma, não só por ser a minha fé, mas principalmente, porque na minha liberdade e procura intelectual, vejo que é a forma que defende melhor os valores em que acredito.

Que a pessoa humana é única e tem um valor inquestionável em si mesma, independentemente da sua situação cultural, económica, de saúde, origem, etc. Sendo mais concreto, se a minha Vida é a coisa mais sagrada para mim, bem como a Vida dos meus familiares e amigos, não posso ter o direito nem a pretensão de achar que outras vidas, muito distantes e que surgem em contextos muito diferentes, merecem menos do que eu acho que mereço.

Como ponto de partida, sugiro a leitura do documento da Congregação para a Doutrina da fé, onde estão descritos os pressupostos e apresentadas as considerações acerca dos vários temas de bioética, incuindo a clonagem. Este documento é feito com a ajuda de técnicos especializados e usam uma linguagem científica com a qual não estou muito familiarizado, mas fico contente que assim seja, porque numa discussão deste género é preciso partir daquilo que acontece.

Não vou acrescentar muito mais àquilo que poderá ser lido, mas faço um pequeno resumo: a clonagem é "a reprodução assexual e agâmica do inteiro organismo humano, com o objectivo de produzir uma ou mais «cópias» do ponto de vista genético substancialmente idênticas ao único progenitor". Esta pode assumir duas formas: a clonagem com fim reprodutivo, e a clonagem com fim terapêutico ou de investigação.

A clonagem com fim reprodutivo é eticamente ilícita, porque dá origem a um novo ser humano sem referência ao contexto da procriação entre duas pessoas. É originar uma pessoa a partir de uma outra, sem a riqueza que está presente na união de duas vidas diferentes. Além disso, é um ser humano com um património genético que é uma cópia de outro e, por isso, não é algo único. No meu entender, creio não ser bom que uma pessoa seja privada da sua individualidade e originalidade genética, aquilo que biologicamente a faz única no mundo.

A clonagem com fim terapêutico é eticamente ilícita, e considerada mais grave, porque coloca uma vida humana como meio e não como fim. Consiste em criar um embrião que seja usado para um fim terapêutico numa outra pessoa doente e que depois seja destruído. Uma pessoa humana não pode ser usada desta forma, mesmo que seja com a finalidade de curar outra pessoa...

Ainda em fase de investigação estão as novas técnicas, que são apresentadas como sendo capazes de produzir células estaminais de tipo embrionário, sem, porém, pressupor a destruição dos verdadeiros embriões humanos. Ainda não se fez nenhum pronunciamento sobre este aspecto, por ser ainda uma questão muito recente. Não está ainda definido se estas células estaminais podem ser consideradas ou não um ser humano. Enquanto isso não é claro, é um procedimento que convém ter muita prudência, para evitar o que acontece na clonagem com fins terapêuticos.

São estas as linhas gerais deste tema, e fica a proposta de reflexão pessoal, sobre aquilo que para nós é a pessoa humana e a sua origem, e se o facto de ser única e irrepetível é um aspecto que nunca deve ser posto em questão. Se querer ter filhos a qualquer custo, ou querer ser curado de uma doença justifica o uso destas técnicas.

Porquê converter-se?

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A sugestão dizia mais respeito aos motivos porque uma pessoa se poderia converter ao cristianismo. Hoje começa a Quaresma, e um dos termos chave deste tempo é precisamente a conversão. Creio que não será errado falar disso, porque mesmo um cristão precisa de se converter; ser cristão não é uma espécie de carimbo para mostrar no passaporte, é muito mais que isso. Apresento o que tenho visto serem, para mim, os principais chamamentos à conversão e como estes são os motivos principais para ser cristão.

Conversão a Deus - A história do pensamento humano sempre se debateu com as questões de provar a existência de Deus. Eu próprio tenho dificuldade em racionalizar a fé, com argumentos que, mais tarde ou mais cedo, se é constrangido a dizer: "até aqui podes pensar, agora ou acreditas ou não acreditas". Não é isso. Converter-se a Deus é admitir que o Amor tem uma palavra definitiva em mim e na minha história. Que não sou eu que domino o amor, mas sou escolhido por Ele. Que o máximo das aspirações humanas é amar e ser amado, a impossibilidade de viver sozinho. E como esta força é tão potente que tem de estar além de mim, e que tem de ser Alguém, com um Nome e um Rosto. E que no cristianismo esse Alguém é uma pessoa, Jesus, que mostra o modo de funcionar de Deus e acho-o fascinante e irresistível.

Conversão de mim mesmo - A nossa raiz situa-se no facto de estarmos vivos. É dinamismo, criatividade, altos e baixos, sonhos e desilusões. Temos em nós uma consciência que o amor é melhor que o egoísmo, que o bem é superior ao mal. Mesmo que a Vida nos mostre o contrário. Mas a Vida vale pelo que se acredita e como me posiciono de frente a ela, em todas as suas dimensões. O cristianimo é exigente, porque me mostra um caminho de amor autêntico, que me faz rever a qualidade do meu amor, o compromisso com o bem, o querer superar-me cada dia em bondade e alegria. Acho que muitas pessoas não se atrevem a ser cristãs porque têm medo de amar completamente, com liberdade, responsabilidade, compreensão. E os cristãos não se atrevem, pelos mesmos motivos, a serem-no completamente.

Conversão aos outros e ao mundo - Sou fascinado pelos olhares de grandes horizontes. Quando o meu mundo são 5 amigos especiais, uma casa, um carro e um trabalho de sonho, tenho um mundo minúsculo. Fecho-me em casa com as coisas que gosto e não vejo o pôr do sol. Um olhar grande é capaz de ver as coisas que tem, de modo relativo, a não ficar preso a elas, mas sabendo amá-las do modo certo. Normalmente confundimos liberdade com desprezo. Mas não se identificam, porque quando amo alguém ou qualquer coisa, amo intensamente no espaço e no tempo que tenho para isso, de todo o coração. E não deixo de amar intensamente por partir para outras paisagens, mas sou chamado a um compromisso novo, a acrescentar o meu mundo.

Conversão à Igreja - Ser cristão não se vive sem uma comunidade. Por ser uma religião em que o amor ao próximo é tão importante como o amor a Deus, a Igreja é parte essencial do cristianismo. E tantas vezes sinto incompatibilidades e incoerências no corpo da Igreja, exactamente como as sinto em relação a mim mesmo. É uma instituição com tantas leis, tradições, coisas pesadas... mas da qual me sinto parte. Nunca me senti impedido, por parte da Igreja, de ser livre no bem e no amor. Sempre me considerei previligiado por exprimir a minha autenticidade no ambiente em que estou, e como a Igreja me ensinou a fazê-lo. E a minha autenticidade é também a minha inteligência, que me diz de não conseguir estar de acordo com tudo, mas não sou capaz de falar desde fora, como se a Igreja fosse qualquer coisa diferente de mim. Devo-lhe demasiado para a criticar desta maneira, e posso criticar porque estou comprometido com ela. Se a base for um desejo de bem, e o conseguir realizá-lo, é impossível não haver diálogo.

São estes os motivos que me fizeram e fazem ser cristão. Sinto-me maior por isso, e com consciência que posso fazer sempre mais. A principal exigência é o compromisso de cada dia, autêntico e responsável, mas não é uma luta, é sobretudo uma experiência de compreensão, perdão e confiança, nos momentos em que não sou eu próprio, mas aos olhos de Deus, sou sempre o mesmo, único no mundo.

Auto-conhecimento

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O tema do auto-conhecimento é muito vasto, e admito que também é um dos meus preferidos. Tenho pensado e rezado muito sobre o conhecer-me a mim mesmo e como isso tem sido fonte de compreensão, perdão, desejo de me aventurar e de ser melhor. Conhecer-se a si mesmo não é apenas uma questão de fazer uma lista de qualidades e defeitos, ou fazer algum teste de personalidade. Estas coisas ajudam, mas correm o risco de permanecer à superfície e não nos faz cair na conta daquilo que verdadeiramente somos. Cada pessoa é um mundo diferente e estaria a perder-me se quisesse falar de tudo, pelo que resolvi apontar algumas coisas que fui lendo e pensando, e acho que se podem aplicar a cada pessoa, ao menos como início de um caminho para se conhecer melhor.

A própria expressão "conhecer-se a si mesmo" indica que existe uma distância entre o eu que conhece e o eu que é conhecido. Vamos conhecendo partes de nós, sem nunca conseguir conhecer-nos completamente. Acredito que sou um mistério para mim mesmo, e este é inesgotável, perigoso, fascinante, digno de todo o amor. Este mistério encontra-se dentro de nós, o espaço meu onde realmente sou aquilo que sou. E como posso chegar lá?


Uma descrição do homem interior que sempre me interpelou é a seguinte: eu sou homem psiquico, homem racional e homem espiritual. Ou, em termos mais complicados, e mais personalizados, mas que explicam a mesma coisa: animus, anima e spiritus. Estas três coisas não são três partes diferentes, como se me pudesse dividir em estratos, mas são modos de funcionamento daquilo que sou, a minha origem e para onde quero caminhar.

Animus é a parte que conheço de mim todos os dias, como vejo que me comporto, como leio a minha história, os meus defeitos e qualidades óbvias. É o que, de algum modo, me faz agir, a minha parte mais consciente, a que estámais imediatamente em contacto com o mundo à minha volta.

Anima é a parte de mim que responde ao bem, que me move para as coisas bonitas, que me faz sair de mim. Entre animus e anima, existe muitas vezes conflito. Sei o que é bem, e não o faço, sei que estou a fazer mal e não deixo de o fazer. Li num texto que a anima é como a dona de casa que procura cuidar e arrumar as coisas. Animus entra em casa e toma posse dela, é muitas vezes egoísta, e vence anima com palavras bonitas e boas justificações. Temos sempre justificações para fazermos o que queremos, mesmo que saibamos que não é bom.

Spiritus é a parte mais interior de mim, aquela que anima contempla e onde arranja forças para suportar, acolher, cuidar e transformar animus. Spiritus é tudo o que nos arrasta para o amor, que nos faz livres, não esperar recompensa, de nos dar sem medida e encontrar nisso a maior alegria. E é no spiritus que encontramos a parte mais débil e, ao mesmo tempo, mais poderosa de nós. É débil porque o amor não existe sozinho, e quando a anima é incapaz de encontrar spiritus e de o amar e ser amada por ele, perde força para ajudar animus a abrir-se também ele ao amor. E é a parte mais poderosa, quando eu percebo que o amor que tenho é mim é um dom, dado em medida inesgotável. Amo porque sou amado e tenho consciência que nunca poderei dar tanto amor como aquele que recebo. Mas procuro corresponder com todas as minhas forças, no fundo amar é o que há de mais natural em mim. E é neste movimento e neste lugar onde Deus está.

Procurando simplificar: O auto-conhecimento, ao menos como eu o percebo, está em olhar estas três dimensões e ver aquelas que têm mais força. Sabendo que a minha autenticidade está no amor, que passa pelo querer fazer o bem, e fazê-lo de facto. Quando spiritus, anima e animus trabalham no mesmo movimento, sou aquele que sou. Se a determinado ponto se quebra esta corrente, posso perguntar-me onde está a raiz disso. Encontrá-la, percebe-la, ama-la e recomeçar...


PS: Que engraçado ter encontrado esta foto,de Marta Ferreira. Animus e anima de mãos dadas, os corpos a fazer um coração e a olhar o mundo através de janelas imensas.

(dia seguinte: ainda sobre o auto conhecimento)

No post anterior falei sobre aquilo que fui percebendo ser, de alguma maneira, uma boa descrição da nossa interioridade e o pano de fundo para podermos saber quem somos. Mas gostaria de acrescentar alguma coisa...

Sou um mistério para mim mesmo, e talvez seja possível que os outros me conheçam melhor que eu próprio. Talvez porque tenho espaços em mim dos quais penso que tenho o direito absoluto a ser o único explorador. Triste e iludido. E estes espaços são tantas vezes quartos escuros, fechados à chave. Tornei-me dono das minhas próprias prisões. Acredito que damos uma importância excessiva à pouca luz que temos, comparada com a dos outros. Ou ao modo pouco brilhante como estamos perante a Vida, quando sabemos bem que ela nos exige que sejamos sóis luminosos.

Conhecer-me é abrir os olhos e os braços ao que está em mim e fora de mim. Mas às coisas sérias e bonitas, no fundo, as únicas que são realmente... É ser capaz de abrir os lugares escuros e perceber que os monstros são formigas... é deixar que um fogo aqueça a casa. É olhar pela janela da alma e ver que estou na proa, e tenho diante de mim aquela paisagem que nunca pensei ver. Porque estamos continuamente a pensar que estamos bloqueados, traumatizados, condicionados?

Quando aquilo que sou é vento que enche as velas de um barco, a cor onde o artista mergulhou o pincel, a música que faz chorar alguém de consolação. É entre a coragem e a luz que me situo e existo... as minhas sombras são marionetes ridículas, só fazem aquilo que eu faço quando olho o sol... não têm um mínimo de vontade própria.

Cristianismo e outras religiões

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A questão da multiculturalidade religiosa e o diálogo da Igreja com as outra religiões é um tema que hoje tem muita força, porque em muitos países o convívio diário com outras culturas religiosas é uma realidade, com as suas riquezas, mas também com os seus desafios. Falando do contexto mais português, onde a religião católica é maioritária e a própria cultura é tradicionalmente ligada a ela, as outras religiões e confissões cristãs, se bem que existem, acabam por não ter uma expressão muito grande e nisso até podemos dizer que vivemos num ambiente bastante tranquilo e respeitoso, comparando com outros países onde isso não sucede.

Antes de mais, talvez seja uma informação desnecessária, mas pode ajudar a esclarecer algumas coisas que talvez não se saibam. Da parte da Igreja, há duas vertentes de diálogo com outras tradições religiosas. Uma é o Ecumenismo, o diálogo entre várias Igrejas cristãs, entre a Igreja católica e as Igrejas protestantes (mais presente nos paises do centro da Europa, ou países anglosaxónicos), a Igreja anglicana (sobretudo em Inglaterra) e as Igrejas ortodoxas (sobretudo na Europa de Leste, Grécia e Médio Oriente). Há outras Igrejas cristãs não católicas, mas apontei as mais numerosas e conhecidas. Todas têm como principais elementos em comum a fé em Jesus Cristo, na sua morte e ressurreição, a Bíblia, o batismo e a celebração da Eucaristia.

A outra vertente de diálogo é o diálogo inter-religioso, com as outras religiões não cristãs: Judaísmo, Islamismo, Hinduismo e Budismo, falando das mais representativas. Estas religiões têm em comum a crença no Divino, quer como Deus, quer como um pricípio de Unificação, etc.

Quando se fala destes temas, imediatamente vêm à memória a história passada de guerras e violência, a inquisição, cruzadas, colonização, excomunhões mútuas... É evidente para nós que continuam a haver infelizmente guerras e violência a vários níveis, motivadas por algumas visões da religião mais extremistas, que acabam por ser o maior contratestemunho daquilo que a religião pode trazer à humanidade que é a paz, fraternidade, ajuda aos desfavorecidos... Também devemos ter em conta que, muitas vezes, em muitas situações de guerra e necessidade, são as organizações religiosas as primeiras a entrar no terreno. Tudo isto para dizer que não é bom nem sensato rotular imediatamente a religião, seja ela qual for, como promotora de violência ou que aliena as pessoas dos problemas concretos da vida. Porque, de facto, não é assim. Se há muitos cristãos, muçulmanos, judeus, budistas ou induistas que fazem violência, e que por isso têm mais publicidade, não quer dizer que haja um número bastante maior de cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e induistas que são empenhados nos compromissos com o seu Deus e com os outros, nas circunstâncias em que vivem.

Em 1965 foi o final, na Igreja Católica, de uma reunião de todos os bispos do mundo, que acontece muitas poucas vezes, (21 em 2000 anos de história). Foi o Concílio Vaticano II, onde a visão acerca das diferenças de religião foi radicalmente mudada. Antes poder-se-ia ter a ideia de que quem não é cristão, se não se converte vai para o inferno, ou não se salva. Mas o Concílio afirma o segunte: "Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta". Sei que aparecem aqui termos mais difíceis de perceber: graça, vontade de Deus, Providência, salvação eterna". Se for preciso, posso falar depois destes temas e explicar o que significam, se não escrevo hoje um tratado!

O que a Igreja refere em relação aos não crentes na fé cristã, é que o mais importante e que realiza o homem é levar com compromisso uma vida de bem, e que procura o bem dos outros, do mundo e a Deus, com sinceridade de coração. A Igreja não condena um bom muçulmano, ou um bom judeu ou um bom anglicano. Na sua própria religião, cada um deve viver de coração aquilo que lhe é transmitido. As religiões têm em comum, apesar das diferentes linguagens e culturas, o amor a Deus, o respeito e o serviço aos outros, sobretudo os pobres e necessitados, e a construção da paz. Acho muito bonito que o espírito humano tenha sempre associado a relação com Deus com um compromisso com o próximo, na paz e no bem. Não há religiões do egoísmo ou da guerra, mas sim leituras erradas dessas religiões.

Nos últimos anos, tem havido, por isso, um esforço de diálogo entre igrejas cristãs e outras religiões, não para se converterem uns aos outros, mas para partirem de bases comuns, a fim de ajudarem a promover a paz e a justiça e a tornar visível o amor de Deus pela humanidade. Creio que todos se foram dando conta que é impossível o regresso ou a existência de uma única religião, mas que é a partir das diferenças que se pode dar o maior sinal de unidade, rezando juntos e trabalhando juntos pela paz, pelo perdão e pela justiça. Algo se começa a fazer, mas ainda se poderia fazer muito mais.

Existe também um enriquecimento mútuo que vem sendo aprofundado. Dou alguns exemplos: no âmbito cristão, os estudos protestantes sobre a bíbila ajudam muito as outras igrejas a percebê-la e a lê-la. A religião cristã tem uma fortissima parte prática, que nasce do amor ao próximo, e isso também desafia outras sensibilidades religiosas mais voltadas para a interioridade. O budismo e o hinduismo podem ajudar muito o tipo de oração cristã, com métodos de usar o corpo, a respiração e a concentração. As igrejas ortodoxas priveligiam muito o uso dos sentidos nas celebrações (música, perfumes, imagens), transmitindo uma presença do divino mais tocável, e que desafia também o modo algo triste com que, por vezes, os católicos estão na missa. Estes elementos vão já aparecendo, mas ainda se poderia fazer mais.

Há, por fim uma questão, que talvez se tenham posto. Se o essencial é o bem, a paz, a boa consciência e a ajuda aos outros, como é que a Igreja diz ter a religião verdadeira? Não são todas iguais? E o mesmo em relação às outras religiões que se afirmam verdadeiras. É sempre uma questão de entender o que quer dizer a Verdade. A Verdade é que todos os homens são amados por Deus e chamados a amá-Lo. Quando isto acontecer plenamente, acontece o chamado Reino de Deus, que se está a construir, mas não está completo. A Igreja é o sinal que expressa, de forma humana - e por isso também contraditória, como todos nós - esta união que há-de acontecer. Não há coincidência entre Reino de Deus e Igreja, mas a Igreja é e deveria ser cada vez mais o referente desta Verdade que está entre nós.

Contemplação

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O nosso dia-a-dia é demasiado cheio e o tempo não chega para aquilo que queremos. Estamos sempre a queixar-nos disso, porque é que o dia não tem mais horas. O grande problema da contemplação está na consideração de uma série de pressupostos que é essencial termos em conta. Há muitos conselhos práticos sobre modos de fazer oração, escrevem-se todos os anos imensos livros sobre isso. Mas há aspectos que devemos ter presentes antes de colocar essa questão, e aos quais me vou referir:

- Temos uma concepção utilitarista do tempo. O tempo serve para fazer qualquer coisa, obter um resultado. A velocidade das nossas acções e das nossas expectativas exigem uma resposta rápida e imediata. Mas o tempo de Deus é diferente. Ele é infinitamente mais paciente que nós, e nós não somos pacientes. Uma imagem do tempo de Deus vem expressa, como há tempos ouvi um professor dizer - que me abriu imensos horizontes - numa expressão de S. Paulo. Ele escreve assim: "Digo-vos,porém, irmãos, que o tempo é breve" (1Cor 7,29). A expressão "é breve" no original grego, não quer dizer que demore pouco tempo, ou faltem algumas horas ou dias para algum acontecimento. S. Paulo usa um verbo utilizado na navegação, que significa amainar ou recolher as velas de um barco. Quer dizer que o tempo se recolhe, se dobra sobre si mesmo, e a eternidade de Deus, como uma vela infinita, condensa-se no momento presente. O tempo de Deus no nosso tempo é esta eternidade oferecida à nossa contemplação. Este é o tempo da oração, segundo o tempo de Deus.

- Por isso, a oração não é um tempo contado, tirado a ferros à nossa disponibilidade, mas é o tempo entregue. É estarmos presentes em profundidade, indo além de nós próprios. Não é regatear minutos e esperar paz de espírito ou comunhão com o mundo e os outros. É um momento de verdade, em que a eternidade está presente com uma força ao mesmo tempo doce e devastadora. Não se encara este tempo com um relógio a servir de escudo, mas de peito aberto a todos os ventos que surgirem. Deus joga-se todo em cada momento do nosso dia, mas na contemplação é quando estamos totalmente disponíveis a perceber isso.

- A contemplação não é uma coisa exclusiva de padres e freiras. Aliás, todas as religiões, e o cristianismo não foge à regra, privilegiam o tempo de contacto com a divindade. Em orações e momentos do dia mais ou menos estruturados, mas que é uma espécie de respiração vital da própria religião. Não existe um cristão no sentido mais forte da palavra, se não tem este contacto único e pessoal com Deus. Rezar a partir da Bíblia, ou ir à Missa, são partes essenciais da fé, mas estou a falar do nível mais profundo, a minha Vida diante da Vida de Deus.

- Por isso, querer contemplar, em qualquer estado de vida, solteiro, casado, ou religioso, é uma opção de fundo. Acredito que é a opção mais autêntica e que expressa mais a nossa força de vontade e o querer alargar os nossos horizontes além do impossível. A base da contemplação é a convicção que Deus está e trabalha em nós, independentemente se rezamos meia-hora ou cinco horas. O tempo de Deus, como disse, é muito diferente do nosso. A Deus basta tocar, na sua eternidade, um minuto do nosso tempo para mudar toda a nossa Vida. Não sei até que ponto acreditamos nisto... Jesus diz no Evangelho que a fé move montanhas. Porque não havemos de acreditar nisto?

- A contemplação, finalmente, não pode ser um tempo para esquecer o mundo e os seus problemas. É, pelo contrário, o momento por excelência para os tornar presentes. É o desafio de não buscar raciocínios e desculpas, classificar-me a mim e aos outros e não chegar a nenhuma conclusão existencial que seja capaz de transformar. Quem vê a sua verdade, pode amá-la, percebendo como esta é amada. E amando,aceitamos e perdoamos. E aceitando e perdoando, temos um coração capaz de coisas muitos grandes. O outro lado da oração é a acção do amor. E Jesus diz, mais uma vez, que pela árvore se conhecem os frutos. Aquilo que fazemos fora, mostra a qualidade das nossas raízes. Sem a contemplação, nunca teremos a possibilidade de amar radicalmente. Ficaríamos ao nível de uma filantropia de circunstância - o que em si é bom - mas não estaríamos todos naquilo que estamos a fazer.

Para resumir. O que tenho reflectido e vivido acerca da contemplação é que é um tempo que não me pertence, que não posso dominar. Que tenho que escolher ter isto como o modo de estar na Vida, aquilo que me define radicalmente. Sem uma profunda vida interior, corremos o risco de tudo ser mais um número, um obstáculo, ou um prazer efémero. Não me transformo, nem transformo. E isto está ao alcance de todos.

Finalmente, depois de ter todos estes aspectos presentes, é o tempo de começar a realizar isto concretamente. A atitude de confiança e disponibilidade inicial é o mais importante. Então, com o realismo das minhas possibilidades escolho um tempo do meu dia para esta eternidade. Quinze minutos, meia-hora, uma hora. Pessoalmente, aconselharia pelo menos meia-hora, que, sinceramente, acho muito difícil que não se tenha durante o dia. Temos sempre tempo para o que verdadeiramente queremos.

E o que fazer este tempo? Simplesmente estar, ou repassar o meu dia e o que foi acontecendo, ou meditar alguma passagem da Bíblia, ou de um livro que me ajude. Nesta altura, um bom livro sobre oração pode dar muitos bons conselhos e cada um poderá encontrar o seu modo próprio. Todos os modos de rezar são bons. Mas o que é mais fundamental é o estar presente. E certamente a nossa Vida muda, de forma imperceptível, com avanços e recuos. Mas aí está... o tempo de Deus não é o nosso tempo e os resultados d'Ele não são os nossos resultados. Estaremos toda a Vida a perceber isto e a entusiasmarmo-nos cada vez mais.

Trabalho contínuo

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Falar do modo como rezo. É sempre um modo de me expor, mas acredito não ser suficientemente íntimo para o não partilhar. Falar da nossa vida interior, para além de uma prudência necessária,por vezes é algo que nos devíamos sentir quase obrigados. O trabalho que Deus faz em nós é luz, e essa não se pode esconder. Transparece em gestos e modos de estar, mas também na forma e no conteúdo daquilo que podemos dizer. E assim, poder ser luz para alguém é colaborar com o desejo de Deus de estar com cada um.

Há diversos tipos de oração, que faço conforme as circunstâncias, mas um deles é o mais habitual. Todos os dias rezo a Liturgia da Horas, a oração oficial da Igreja, de manhã e à tarde, que consiste sobretudo na leitura orante de alguns salmos, um pequeno excerto da bíblia e rezar pelas intenções do mundo, juntamente pelas pessoas e intenções que tenho presentes no meu dia. Mas não é só isto.

Sinto que sou sempre pouco merecedor do que Deus faz em mim e por mim. E como o Amor dele por mim me supera infinitamente e não tenho realmente consciência do que isso é. Com o passar do tempo, fui descobrindo que o Espírito trabalha em nós continuamente. É a minha frase espiritual que me define: "O meu Pai trabalha continuamente, e eu também", no Evangelho de João. E tenho disso a certeza mais absoluta. O que fica da minha parte é abrir a porta do tempo, do espaço e do coração para que Ele esteja e trabalhe, como Ele quiser.

Faço uma oração de presença, sem palavras e sem pensamentos, durante pelo menos meia hora, em que dirijo as minhas energias para Deus, dispondo-me à sua vontade. Ponho aquilo que sou diante dele, sabendo que Ele sabe o que preciso para o momento que vivo e esperando e confiando que me dará a graça para o fazer. Não espero milagres, nem visões místicas, quero apenas estar e preciso de estar assim. O que tenho de mais precioso é a Vida, e é isso que procuro oferecer em liberdade todos os dias. Se eu ofereço e me confio, Deus não pode deixar de aceitar, e assim me vai transformando, iluminando aquilo que sou e aquilo que faço.

É apenas isto... continuo a ser teimoso e a não deixar mudar muitas coisas em mim. Mas o amor é paciente, e esta paciência de Deus é também exigente, não gosto de ficar sempre igual ao dia anterior. =)

Tempo para Deus (Interno e Externo)

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Temos uma vida agitadíssima, cheia de compromissos com a família, os amigos, o trabalho. E pensamos que não há tempo para pensar nas coisas, saboreá-las e rezá-las. Ficamos à espera de dias mais tranquilos, das férias, ou do tempo oportuno em que finalmente arrumo a casa por dentro. Quando chega o momento de parar, é tanta a aceleração interior e os problemas são tão vivos no pensamento, e o corpo não consegue estar quieto. Não foi o tempo que afinal tinha desejado, descansei, mas o meu interior ficou igual.

Creio que muitas vezes temos tendência a pensar que uma coisa é a vida do dia-a-dia e os seus acontecimentos, e outra é a minha vida interior e as suas necessidades incompletas. Todos dizemos que o tempo do dualismo alma-corpo já é passado, mas continuamos a viver isto como pressuposto e a criar uma divisão em nós que não devia existir. Uma forma nova de falar de alma-corpo seria interno e externo. Mas com uma diferença fundamental. O interno e o externo não são duas dimensões separadas com as quais tenho que combater para dar espaço uma à outra, mas são eu próprio, completo. O interno é minha memória, inteligência, sensibilidade, emoção, vontade e liberdade.O externo é a minha pele, que faz parte de mim e me acompanha para onde quer que vá. Na pele estabelece-se o contacto com o mundo, as carícias e os golpes, o frio e o calor, a água e o sangue. Todo eu sou interno e externo, que se comunica, tal como a pele precisa do vasos e dos nervos para comunicar com o corpo e ter a sua função de toque e defesa.

A vida e as suas ocupações tocam-me do exterior e fazem parte de mim. Sou o que me acontece, tal como sou aquilo que sinto e penso, exactamente da mesma forma. Por isso, a vida acontece quando eu estou presente nela e levo à vida aquilo que tenho em mim. Seria preciso amar tudo, como me amo a mim próprio.

Se cada dia for capaz de ter um tempo para estar atento à vida tocada na pele, dar-me-ia conta de que não posso fazer outra coisa que agradecer por ter chegado ao fim mais completo, de pedir perdão por não ter amado tudo o que acontece e, logo, tudo o que sou, de querer melhorar já amanhã o que hoje não foi meu. Tocar a minha pele, agir internamente, partir completo para um novo dia. Três passos, alguns minutos, uma vida mais autêntica.

(dia seguinte)
Partindo da base que escrevi no post anterior, que penso ser uma forma bastante visível de perceber a minha relação com o mundo e a forma como faço parte dele, gostaria ainda de dedicar alguns pensamentos ao modo concreto como poderei no meio de um tempo ocupado, encontrar tempo para olhar a Vida com Deus.

O tempo de oração não é apenas um momento de paragem e dedicação exclusiva à meditação. É sobretudo uma atitude que posso - e devo - transportar nos momentos do dia a dia. Especialmente os seus frutos. Porém, temos necessidade de um tempo exclusivo para a oração, como o corpo precisa de respirar a plenos pulmões para se encher de maior vida e energia. E sabemos bem como é importante respirar profundamente.

Às vezes, chego a ser duro comigo mesmo, dizendo que para aquilo que realmente quero, encontro sempre tempo. De facto é assim, coisas urgentes podem esperar quando aparece improvisamente aquilo que mais quero fazer no momento. Se o que mais quero é estar no silêncio, eu e Deus, então consigo estar. Se quero mais ou menos, ou só alguns dias, então raramente estarei.

Cada pessoa encontrará no seu dia o tempo e o modo de rezar. É essencial que o queira e que precise dele como de ar para viver. O exercício que propus no post anterior é um bom início, partir do dia concreto, e amar-me enquanto o amo, perdoar-me enquanto o perdoo, ser melhor amanhã. Os frutos da constância vão surgindo e, da mesma maneira, a vontade de continuar e aperfeiçoar. Um ciclo virtuoso, rezar bem, faz querer rezar melhor. Mas só experimentando cada dia se poderá verificar como isto acontece.


PS: Este é um dos muitos modos de rezar, amanhã falarei de outro, que pessoalmente sigo, como me foi sugerido! Por hoje ficam estes conselhos, espero que ajudem. =)

Eutanásia

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Não é muito hábito deste blog fazer apresentações mais "teóricas" de certos temas, mas sim proporcionar algumas reflexões sobre a Vida e o dia-a-dia, de um modo mais pessoal. Porém, aceito o desafio de escrever sobre este tema, até porque estes dias, aqui em Itália, tem sido a notícia do dia. É também invulgarmente longo, mas não queria deixar coisas importantes de fora.

A Congregação para a Doutrina da Fé, na declaração sobre a Eutanásia, apresenta a seguinte definição: "uma acção ou omissão que, por sua natureza ou nas suas intenções, provoca a morte a fim de eliminar toda a dor". Por sua natureza, quer dizer, uma acção ou omissão que provoque directamente e imediatamente a morte; e essa acção ou omissão é intencional , isto é, alguém quer provocar directamente a morte, a si mesmo ou a outro. A eutanásia é, por isso, eticamente inaceitável, pois viola a dignidade da vida humana e a indisponibilidade da pessoa. Quer dizer, ninguém, nem sequer o próprio, tem o direito de decidir quando a sua vida tem de chegar ao fim.

Como há tempos também reflectia: nós temos uma vida, mas não somos a nossa vida, esta supera-nos infinitamente, pertencemos a ela, mais do que ela nos pertence. Tudo isto é fácil de falar, mas na realidade, as situações em que se põe a questão de acabar com o sofrimento, acabando com a vida, são terrivelmente marcadas pela angústia e desespero, do próprio e dos familiares, o qual se deve respeitar acima de tudo, muitas vezes no silêncio e na incapacidade de fazer ou dizer algo. A morte é um momento que nos põe enormes questões sobre a vida e o seu sentido, e não conseguimos ficar indiferentes a isso.

A eutanásia decorre também num ambiente em que acabar com a vida parece ser a única solução para um sofrimento atroz e prolongado, que se deve eliminar, mesmo que seja eliminando a pessoa. Existe aqui uma capa de "bem", mas que no fundo esconde algo que não se pode iludir: mesmo no sofrimento mais incompreensível e inaceitável, é uma Vida que está em questão, a qual não pode terminar de forma artificial e provocada. O magistério da Igreja, porém, considera lícito que se possa administrar medicação para aliviar o sofrimento, mesmo que isso implique o encurtamento da vida. Do mesmo modo, deve-se acompanhar o doente de uma forma humana e integral, em todas as suas necessidades: são os chamados cuidados paliativos.




O exemplo que estes dias ocupa as páginas dos jornais é o caso de Eluana Englaro, que desde 1992, está em coma e à qual, ontem de manhã, por ordem judicial que acolheu o pedido do pai de Eluana, se começou a reduzir a alimentação e hidratação, que conduzirá à sua morte por inanimação. A justificação é que é uma situação irreversível, e que mantê-la seria cair no outro extremo da eutanásia, que é a distanásia, ou seja, manter a vida a qualquer custo.

O magistério da Igreja condena a distanásia. E afirma em relação a isso que é lícito e também um dever moral reconhecer que a vida chega ao seu fim e que deixar morrer não equivale a provocar a morte. A mesma Congregação da Doutrina da Fé refere-se assim à não aplicação da distanásia: "é permitido interromper a aplicação dos meios de que dispõe a medicina avançada quando os resultados não correspondem às esperanças neles depositadas" e "na eminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é lícito tomar a decisão de renunciar a tratamentos que dariam somente um prolongamento precário e penoso da vida, sem contudo interromper os cuidados normais devidos ao doente em casos semelhantes".

É precisamente aqui que o caso de Eluana é inaceitável, porque lhe estão a ser negados os cuidados normais, a alimentação e a hidratação, que a fará morrer de fome e sede. Isso choca-me e não devia acontecer assim. Poder-se-ia interromper o tratamento, como situação irreversível que é, mas dar de comer e beber, mesmo que de modo forçado, é algo básico que não se pode tirar a um ser humano.


PS: Só algumas observações laterais a este caso, que fui reflectindo. É muito triste ver como uma situação de sofrimento de um pai que pede ao tribunal para acabar com a vida da filha, já que a lei não o permitia, está a ser explorada indecentemente a nível político. Como as máscaras de bem e de defesa da Vida escondem tantos interesses mesqunhos de popularidade.
Não me sinto no direito de julgar o pai de Eluana por ter pedido isto, são 17 anos de uma situação terrível, de ver a filha sem possibilidades de ter uma vida normal e não suportar isso, mesmo que não concorde com a sua decisão.
Outra coisa que me faz confusão é a facilidade com que o presidente do Conselho Pontifício para a Pastoral da Saúde, classifica de "assassínio abominável" o que está a acontecer, mesmo referindo-se de forma muito humana ao contexto de dor que envolve esta situação. Concordo que matar alguém à fome e à sede é abominável, mas é muito pesado o título de assassino para um pai que lida há tantos anos com esta situação, preferia outro tipo de linguagem.
Por último, há uma questão de fundo que não aparece muito nestes debates, nem sequer no pronunciamento oficial da Igreja: a qualidade de vida. O que se entende por isso no contexto do fim da vida? Como reflectir de modo mais abrangente, teologicamente, antropologicamente, cientificamente, sobre esta questão? Creio que aqui se devia reflectir mais. Ao menos, vou procurar fazê-lo.

O Divórcio

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A questão do divórcio é, sinceramente, um tema que não me deixa muito confortável, por dois motivos principais: o primeiro é que eu próprio, como futuro padre, estou a referir-me a um assunto do qual não tenho experiência pessoal, a não ser através de casos com quem contacto ou de histórias que vou ouvindo. O segundo motivo é que, ao falar deste tema, corre-se o risco de generalizar e não ter a noção de que cada caso é único, e requer uma apreciação particular. Se certos casos de divórcio podem ser caracterizados por alguma "ligeireza", acredito que a esmagadora maioria envolve situações de muito sofrimento e desilusão: um sonho em comum que não está a ser possivel realizar, e as quais respeito profundamente.

Por isso, procurarei fazer uma reflexão sobre o que poderá ser mais essencial, para estar atento e cada um poder tirar também as próprias conclusões.

O casamento, ao menos na nossa cultura ocidental, mesmo para a Igreja, tem um elemento de visibilidade social. É uma instituição social, pois, perante uma sociedade, duas pessoas realizam um compromisso (ou contrato) de viver em comum, criar família, partilhar os bens, etc., e esse compromisso tem os seus direitos e as suas obrigações, que os vários códigos civis ou religiosos prevêm. Há porém, o elemento mais interior desta união, que é o facto de duas pessoas se amarem e desejarem viver a sua vida em comum uma com a outra. Não há lei que possa aferir a qualidade ou a quantidade deste amor, simplesmente se toma como pressuposto, ao menos razoavelmente. Sobretudo agora, que já passou o tempo dos casamentos por conveniência ou desejo dos pais.

Estou a dizer o óbvio se afirmar que o Amor é a base do casamento, mesmo que depois este assuma exteriormente a forma de um acordo entre duas partes, com uma projecção social. E é sobre isto que quereria reflectir.

Quando duas pessoas se amam verdadeiramente, vêem claramente que a sua vida faz sentido se for partilhada em todos os momentos, descobre-se o lugar da própria existência mais central, onde é impossível estar sozinho: onde tu e eu precisamos um do outro, para sermos quem somos e realizados nas nossas maiores aspirações, onde se entrega a vida mutuamente. E esta relação de amor não é fechada, porque todo o amor é fecundo e gera vida. Quando ouço falar da família como a célula da sociedade, penso nisto: como é maravilhoso que os homens e mulheres de amanhã nasçam a partir de um amor incontido, que se comunica em nova Vida. Isto é tão bonito como extremamente exigente, é uma responsabilidade tão grande dar filhos ao mundo...

Fazer um caminho em direcção a esta consciência é o que, a meu ver, decide muito do resultado e do "sucesso" de um casamento. Estou a fazer a minha preparação para ser padre há 12 anos, com pessoas especializadas e preparadas para me ajudarem a ter consciência da minha opção de Vida. Não há nenhum casal no mundo que faça um percurso idêntico de mútuo-conhecimento para poder amadurecer a relação, sonhar com ela, etc. Nem isso seria viável, mas é para fazer cair na conta de como uma opção de casamento requer uma maturidade muito grande e um caminho de exposição da própria verdade, das próprias intenções e, sobretudo da energia de amor que liga duas pessoas, no presente e no futuro.

Uma preparação mal feita e à pressa, não é o único problema, nem creio ser o problema principal. É necessário ter consciência, de inteligência, alma e coração, da profundidade do amor, e como só este é capaz não só de dar Vida e entregá-la, mas também de perdoar, perceber, cuidar, ser fiel, ganhar e perder, sempre na maior alegria. Desejar amar com todas as suas consequências é o grande motor do casamento. Quando duas pessoas casam a ver o que depois dará, algo não está a funcionar... Se bem que podem surgir dificuldades tão grandes que não se podem resolver senão com a separação, é preciso ser consciente de que não é primeira dificuldade que pôe tudo em questão. Como disse, cada caso é um caso....

Quer a legislação civil, quer a legislação do direito da Igreja prevêm casos de divórcio, ou anulação do casamento. Bem sabemos que é mais fácil obter o divórcio civilmente do que na Igreja. O casamento na Igreja, para além do aspecto do consenso e do contrato social, é uma união abençoada por Deus. Não como um elemento mágico, mas como a expressão da divindade do amor, presente na vida de duas pessoas que se unem. No fundo cada um dos esposos diz sim à capacidade de amar até ao limite, sem "ses" ou "mas". Quem casa assim, com-promete a própria Vida com o outro, e o amor total é eterno, dura toda esta vida, até sempre.

A dificuldade em haver divórcio na Igreja deve-se ao facto de querer salvaguardar este acontecimento fundamental. No direito da Igreja são previstos muitos casos que se poderá anular o casamento, por razões muito fortes, que tenham a ver com a verdade, a integridade, e outras situações que possam vir a ser apreciadas, tão variadas quantas as circunstâncias e as pessoas. Mas pela razão de apelar à profundidade humana e espiritual de quem casa, não se pode quebrar um laço tão forte por motivos débeis. No fundo, é preciso ser também responsável das próprias opções e o casamento, a meu ver, não é algo que se possa decidir levemente.

Há tempos, li no último número da revista Brotéria (revista de cultura publicada pelos jesuítas portugueses) um artigo sobre a nova legislação do divórcio em Portugal. Esta facilita o divórcio de uma forma que pode abrir caminhos a grandes injustiças, sobretudo quendo pôe em questão os direitos da parte lesada ou dos filhos. Fiquei muito preocupado e perguntei-me, como na reflexão final do artigo aparece, se a nova lei do divórcio acaba por pôr em crise o casamento como instituição de estabilidade social; e se estas leis acabam, no final, por dar maior relevo ao casamento religioso, por este alimentar mais a coêrencia de vida e de amor e, por isso mesmo, vem mais protegido.

Amor Próprio vs Egoísmo

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É um tema muito sugestivo. Normalmente, penso que o amor-próprio é uma versão do egoísmo, relacionado com o orgulho. Quando nas nossas relações algo nos fere, é o nosso amor-próprio que se revolta com a injustiça ou a falta de respeito. Atacaram a nossa dignidade, fizeram-nos sentir menores. E isso é desconfortável e faz-nos reagir. Tenho sempre a impressão que as motivações que nascem de sensações desagradáveis não são boas, e as acções que pomos em movimento através delas acabam por magoar e romper qualquer coisa.

Pode-se também pensar em amor-próprio como uma versão da auto-estima (um amigo meu disse-me um dia que esta palavra lhe causa arrepios e eu, pensando melhor sobre isso, também concordo com ele). Este amor-próprio nasce do desejo de nos afirmarmos naquilo que somos, de termos uma palavra a dizer, de nos sentirmos úteis. E quando isto não acontece, quando não somos reconhecidos, surgem de novo feridas e reacções desagradáveis.

Creio que pode haver um ponto de equilíbrio entre todas estas sensações. O amor-próprio está ligado a algo natural em nós, uma espécie de instinto de sobrevivência, para não desaparecer no mundo das relações. O grande segredo está no modo em como usamos esta nossa energia, em que somos felizes com aquilo que somos, temos e fazemos. No fundo como gostamos de nós e nos mostramos aos outros, como nos fazemos reconhecer e amar.

O egoísmo não é bom, o centro do mundo sou eu, e isso é uma fonte de tensão e desolação, porque simplemente a Vida e as suas circunstâncias, as minhas relações, não funcionam com interesses de ilhas isoladas, de querer controlar tudo e todos, mas segundo modos de comunicação e partilha, de ganhar e perder. Fico doente, os outros não fazem o que quero, o patrão não reconhece o meu valor, não tenho tempo para o que quero... e tudo isto estraga o meu mundo imaginário. Terei de viver o que sou de outra maneira.

A energia do amor-próprio deveria ser usada num dinamismo de humildade e simplicidade. Ser humilde não é apagar-se, mas é reconhecer a própria bondade e beleza, que é algo fundamental em cada um de nós e que nunca desaparece. E comunicar o que sou com simplicidade, com vontade de ser melhor e estar disponível. Um professor meu usa muitas vezes uma frase de Shakespeare que gosto muito: "Readiness is all". Estar pronto para tudo, para o que acontecer, sabendo que a minha capacidade de fazer o bem em todas as circunstâncias não desaparece.

Isto implica uma coragem gigantesca, que vive em perfeita harmonia com a humildade de saber que não posso dominar tudo, e a simplicidade de aceitar a Vida como oportunidade de me questionar e ver que coisas estou pronto para fazer. Este amor-próprio é extremamente criativo e corajoso, forte, e pode trazer muitos frutos àquilo que vivo com os outros.

Dependência afectiva

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A liberdade nas relações é daqueles temas que mais mexe comigo. Precisar de alguém, querer muito bem a uma pessoa é algo tão natural nas relações que são importantes na nossa Vida. De certa maneira, é o modo espontâneo de dar aquilo que se recebeu. E assim, preocupamo-nos, cuidamos, perdoamos, conhecemo-nos e admiramo-nos naquilo que somos.

O que está na base de uma relação deste tipo é o amor, nas suas diversas formas. O amor é comunicação e gratuidade, damos o que somos e temos por causa do outro, para o fazer feliz. Contudo, há um mecanismo muito escondido em nós que procura receber algo em troca do que dá. Esse mecanismo existe e é importante que sejamos conscientes dele e da forma como pode agir. Sempre que uma relação começa a ter como referência o eu e não o outro, podem surgir problemas.

Começamos a cobrar, a desconfiar, a querer mais atenção, a fazer jogos de silêncios... Obrigando o outro a ter-me no centro do seu mundo. O critério que me pode fazer pensar sobre a liberdade em determinada relação é o que sinto quando penso nela: se confiança, alegria, estima, ou tensão, medo e angústia. Se as últimas coisas acontecem, é porque não estou livre e estou mais preocupado comigo. E isso não é bom.

É possível dar-se com limites? Depende dos limites que são, cada relação é uma história única. Mas quando faz sentido, o dar-se sem limites tem a cor da confiança absoluta e da abertura para falar sem medo. Se não, podemos começar a fazer violência, que é a outra face do amor, como há dias escrevi numa outra reflexão.

Relações humanas

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Nas minhas experiências de amizade, tenho descoberto algo que me fascina sempre mais. Cada pessoa é uma paisagem completamente nova. E completamente diferente. Conheço melhor quem sou quando me dou conta das diferenças: que os outros pensam, são e fazem de outra maneira. Aprendo com isso muitas formas novas de estar na Vida.

Há relações humanas que fazem parte da nossa vida, que não pudemos escolher, a nossa família, colegas de escola e de trabalho. Mas nem todas estas relações poderão vir a ser significativas para mim. Há um passo inicial que começa com uma conversa, uma sintonia, uma coincidência. Se algumas relações não as posso escolher, outras tenho a impressão de ter sido escolhido por elas. As relações significativas são aquelas de amizade ou de estar apaixonado, e isso percebe-se quando o meu dia é marcado por uma intenção, de me lembrar de alguém muitas vezes, ou de ter uma pessoa como critério das minhas escolhas, mesmo as mais pequenas. Estas relações acabam por fazer parte de mim, de uma forma que não posso iludir.

É aqui que surgem duas perguntas. Quem és para mim? Quem sou para ti? E a resposta pode ser juntar paisagens tão diferentes e fazer um mundo cheio de novas cores: mar e montanha, deserto e oásis, planície e cidade. Onde há partilha, alegria, crescimento, perdão, compreensão. Onde um não deixa de ser quem é, mas busca continuamente espaço para o outro construir a sua casa.

Mas outra resposta poderia ser uma só paisagem, onde não houvesse diferenças, ou um bosque onde não soprasse o vento, e o pólen não pode fecundar as plantas: Um peixe no oceano, uma árvore num jardim, um quarto numa casa. Onde o outro estivesse num espaço que eu tivesse já determinado, e do qual ele não poderia sair. Ou vice-versa.

A primeira resposta é liberdade, a segunda é dependência. A amizade e o amor perdem a força se são demasiado apertados entre abraços que não deixam brilhar a força e a beleza. E com isso, podemos acabar por perder tudo.

Ausência de Deus

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Se escrevesse num diário os sentimentos de cada dia, certamente iria visitar muitas vezes as páginas mais coloridas. Temos a necessidade de regressar aos tempos em que um dia ouvimos claramente o nosso nome e encontrámos a nossa casa perfeita, arrumada, na paisagem que criámos. Porém, à medida que passa o tempo, vamos escrevendo páginas com canetas gastas e as cores vão perdendo força, sem percebermos porquê.

A Vida faz-nos crescer, somos cada vez mais completos e mais complexos; e o que um dia seria óbvio acontecer, hoje é uma miragem, ou uma saudade. Temos nas mãos uma possibilidade de escrever cada dia a nossa história. Mas o que já existiu, não serve para escrever o que hoje sou e me acontece. Simplesmente vamos virando páginas... sucessivamente.

Acredito que aquilo que uma vez foi dado e conquistado não se perde nunca. É esta a nossa marca de eternidade, o poder criar a partir da matéria que são os nossos dias, mesmo que seja terra seca e vasos quebrados. A força que um dia moveu as minhas mãos não deixa de as fazer mover agora. O que tem de ser construído é mais exigente, mas confio que o resultado será uma obra mais perfeita do que posso imaginar.


PS: A questão da ausência de Deus, tenho-o sentido muito pessoalmente, aparece nas alturas em que as coisas se complicam. E quando mais precisaria de Deus, mais encontrei um silêncio incapaz de responder às minhas perguntas. Mas fui-me dando conta de que fui eu que mudei e deixei de estar atento à minha profundidade, sem a fazer crescer comigo. Entretanto a vida muda, mas as raízes permanecem pequenas e com pouca força para me agarrar quando há vento forte. Regressar à profundidade ajudou-me a descobrir respostas que nunca tinha pensado. E percebi que Deus falava, mas de um modo que eu já não conseguia ouvir. Falava-me daquilo que me assustava e preocupava, precisamente aquilo que evitava pensar. E Ele foi paciente comigo e eu fui paciente comigo. Amei o hoje. E as raízes cresceram...

 

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