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20 março 2010

A Paz de Cristo

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Como discernir a paz de Cristo? Este tema necessariamente será dirigido a quem já tem uma vida de fé e oração e pretende encontrar modos e critérios para descobrir esta paz que vem do encontro com Jesus.

Especialmente na oração, não há receitas infalíveis. Tal como, com os nossos amigos, temos um modo específico e particular de nos relacionarmos com cada pessoa, do mesmo modo, o encontro com Deus na oração é extremamente pessoal. Cada um terá de encontrar o seu próprio modo de rezar, de acordo com a sua sensibilidade, carácter, estilo de vida e circunstâncias. Há pessoas que rezam a partir dos acontecimentos da vida, ou a partir das leituras do dia, outras que preferem silêncio sem grandes palavras, outras que pedem luz para algumas decisões que têm que tomar.

Em todas estas circunstâncias, há algo comum que é importante ter em conta. O primeiro aspecto é que a oração consiste num encontro com Alguém que quer estar connosco numa relação de transparência, verdade, intimidade e amor. Não estamos diante de um juiz ou de um mago, mas de alguém que acolhe e ajuda a transformar, orienta tudo aquilo que temos de bom para um horizonte maior. O segundo aspecto é que a boa oração é uma graça que não depende só de nós. O desejo e o tempo que temos à disposição para a oração é essencial, mas os resultados da oração partem de Deus. E Deus tem os seus tempos e modos de se comunicar, que muitas vezes estão além das nossas expectativas. Esperar que a oração nos traga aquilo que queremos corre o risco de transformar o encontro numa espécie de mercado e retribuição, o que tira a gratuidade e a surpresa. A oração, por isso, é um encontro de disponibilidade para aquilo que for, um exercício completo de liberdade.

Um dos frutos da oração é a paz. E como fruto que é, devemos pedi-la constantemente. Não como um direito que temos, mas como disposição total de abertura a recebê-la. Receber a paz de Cristo não é criar um espaço de tranquilidade psicológica, que nos poderia fazer ficar numa ilha desligada da vida, mas receber a paz como dom que transforma o nosso ser e o nosso agir.

Vejo muitas vezes a necessidade que as pessoas têm de um espaço de paz e existem imensos locais que a propõem, do tipo da meditação transcendental baseada em métodos orientais. E isto é bom. Porém, também tenho visto que estas experiências correm o risco de criar o efeito de uma ilha de tempo e espaço desligada do resto. É um processo psicológico mais que um encontro. E quando se sai desta ilha, evita-se a todo o custo confrontar-se com as "más energias" dos outros, quando o óbvio seria que a paz que se tem fosse motor para afrontar tudo e todos num desejo de curar feridas e estabelecer relações de verdade.

A paz que vem de Jesus pode ser encontrada também num tipo de meditação com métodos orientais. É também o meu preferido, mas importa perceber antes que não é uma paz conseguida, mas uma paz recebida.  Quais são então os critérios que nos permitem discernir a paz que vem de Cristo?

É uma paz que cura as nossas feridas, porque é voz de perdão e acolhimento total da nossa pessoa. Quem se sente amado sem condições sai transformado, deixa para trás os bloqueios e acredita na própria vida como caminho concreto de bem. Quem tem esta paz não se isola do mundo, mas quer fazer aos outros a mesma experiência de perdão. Não condena facilmente, mas ajuda com verdade. A paz faz-nos estar centrados que as coisas que nos acontecem, por piores que sejam, não nos distraem do essencial, aprendemos a relativizar tudo e colocar cada coisa num projecto de crescimento.

É uma distância que aproxima e faz agir. Perante cada coisa, pergunto-me: e agora? Que possibilidade de amar me é dada? São as pessoas de paz que não desesperam, mas têm a força de encontrar soluções. Isto é um dom enorme, e o centro da qualidade da nossa Vida.

11 setembro 2009

Contemplação

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O nosso dia-a-dia é demasiado cheio e o tempo não chega para aquilo que queremos. Estamos sempre a queixar-nos disso, porque é que o dia não tem mais horas. O grande problema da contemplação está na consideração de uma série de pressupostos que é essencial termos em conta. Há muitos conselhos práticos sobre modos de fazer oração, escrevem-se todos os anos imensos livros sobre isso. Mas há aspectos que devemos ter presentes antes de colocar essa questão, e aos quais me vou referir:

- Temos uma concepção utilitarista do tempo. O tempo serve para fazer qualquer coisa, obter um resultado. A velocidade das nossas acções e das nossas expectativas exigem uma resposta rápida e imediata. Mas o tempo de Deus é diferente. Ele é infinitamente mais paciente que nós, e nós não somos pacientes. Uma imagem do tempo de Deus vem expressa, como há tempos ouvi um professor dizer - que me abriu imensos horizontes - numa expressão de S. Paulo. Ele escreve assim: "Digo-vos,porém, irmãos, que o tempo é breve" (1Cor 7,29). A expressão "é breve" no original grego, não quer dizer que demore pouco tempo, ou faltem algumas horas ou dias para algum acontecimento. S. Paulo usa um verbo utilizado na navegação, que significa amainar ou recolher as velas de um barco. Quer dizer que o tempo se recolhe, se dobra sobre si mesmo, e a eternidade de Deus, como uma vela infinita, condensa-se no momento presente. O tempo de Deus no nosso tempo é esta eternidade oferecida à nossa contemplação. Este é o tempo da oração, segundo o tempo de Deus.

- Por isso, a oração não é um tempo contado, tirado a ferros à nossa disponibilidade, mas é o tempo entregue. É estarmos presentes em profundidade, indo além de nós próprios. Não é regatear minutos e esperar paz de espírito ou comunhão com o mundo e os outros. É um momento de verdade, em que a eternidade está presente com uma força ao mesmo tempo doce e devastadora. Não se encara este tempo com um relógio a servir de escudo, mas de peito aberto a todos os ventos que surgirem. Deus joga-se todo em cada momento do nosso dia, mas na contemplação é quando estamos totalmente disponíveis a perceber isso.

- A contemplação não é uma coisa exclusiva de padres e freiras. Aliás, todas as religiões, e o cristianismo não foge à regra, privilegiam o tempo de contacto com a divindade. Em orações e momentos do dia mais ou menos estruturados, mas que é uma espécie de respiração vital da própria religião. Não existe um cristão no sentido mais forte da palavra, se não tem este contacto único e pessoal com Deus. Rezar a partir da Bíblia, ou ir à Missa, são partes essenciais da fé, mas estou a falar do nível mais profundo, a minha Vida diante da Vida de Deus.

- Por isso, querer contemplar, em qualquer estado de vida, solteiro, casado, ou religioso, é uma opção de fundo. Acredito que é a opção mais autêntica e que expressa mais a nossa força de vontade e o querer alargar os nossos horizontes além do impossível. A base da contemplação é a convicção que Deus está e trabalha em nós, independentemente se rezamos meia-hora ou cinco horas. O tempo de Deus, como disse, é muito diferente do nosso. A Deus basta tocar, na sua eternidade, um minuto do nosso tempo para mudar toda a nossa Vida. Não sei até que ponto acreditamos nisto... Jesus diz no Evangelho que a fé move montanhas. Porque não havemos de acreditar nisto?

- A contemplação, finalmente, não pode ser um tempo para esquecer o mundo e os seus problemas. É, pelo contrário, o momento por excelência para os tornar presentes. É o desafio de não buscar raciocínios e desculpas, classificar-me a mim e aos outros e não chegar a nenhuma conclusão existencial que seja capaz de transformar. Quem vê a sua verdade, pode amá-la, percebendo como esta é amada. E amando,aceitamos e perdoamos. E aceitando e perdoando, temos um coração capaz de coisas muitos grandes. O outro lado da oração é a acção do amor. E Jesus diz, mais uma vez, que pela árvore se conhecem os frutos. Aquilo que fazemos fora, mostra a qualidade das nossas raízes. Sem a contemplação, nunca teremos a possibilidade de amar radicalmente. Ficaríamos ao nível de uma filantropia de circunstância - o que em si é bom - mas não estaríamos todos naquilo que estamos a fazer.

Para resumir. O que tenho reflectido e vivido acerca da contemplação é que é um tempo que não me pertence, que não posso dominar. Que tenho que escolher ter isto como o modo de estar na Vida, aquilo que me define radicalmente. Sem uma profunda vida interior, corremos o risco de tudo ser mais um número, um obstáculo, ou um prazer efémero. Não me transformo, nem transformo. E isto está ao alcance de todos.

Finalmente, depois de ter todos estes aspectos presentes, é o tempo de começar a realizar isto concretamente. A atitude de confiança e disponibilidade inicial é o mais importante. Então, com o realismo das minhas possibilidades escolho um tempo do meu dia para esta eternidade. Quinze minutos, meia-hora, uma hora. Pessoalmente, aconselharia pelo menos meia-hora, que, sinceramente, acho muito difícil que não se tenha durante o dia. Temos sempre tempo para o que verdadeiramente queremos.

E o que fazer este tempo? Simplesmente estar, ou repassar o meu dia e o que foi acontecendo, ou meditar alguma passagem da Bíblia, ou de um livro que me ajude. Nesta altura, um bom livro sobre oração pode dar muitos bons conselhos e cada um poderá encontrar o seu modo próprio. Todos os modos de rezar são bons. Mas o que é mais fundamental é o estar presente. E certamente a nossa Vida muda, de forma imperceptível, com avanços e recuos. Mas aí está... o tempo de Deus não é o nosso tempo e os resultados d'Ele não são os nossos resultados. Estaremos toda a Vida a perceber isto e a entusiasmarmo-nos cada vez mais.

Trabalho contínuo

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Falar do modo como rezo. É sempre um modo de me expor, mas acredito não ser suficientemente íntimo para o não partilhar. Falar da nossa vida interior, para além de uma prudência necessária,por vezes é algo que nos devíamos sentir quase obrigados. O trabalho que Deus faz em nós é luz, e essa não se pode esconder. Transparece em gestos e modos de estar, mas também na forma e no conteúdo daquilo que podemos dizer. E assim, poder ser luz para alguém é colaborar com o desejo de Deus de estar com cada um.

Há diversos tipos de oração, que faço conforme as circunstâncias, mas um deles é o mais habitual. Todos os dias rezo a Liturgia da Horas, a oração oficial da Igreja, de manhã e à tarde, que consiste sobretudo na leitura orante de alguns salmos, um pequeno excerto da bíblia e rezar pelas intenções do mundo, juntamente pelas pessoas e intenções que tenho presentes no meu dia. Mas não é só isto.

Sinto que sou sempre pouco merecedor do que Deus faz em mim e por mim. E como o Amor dele por mim me supera infinitamente e não tenho realmente consciência do que isso é. Com o passar do tempo, fui descobrindo que o Espírito trabalha em nós continuamente. É a minha frase espiritual que me define: "O meu Pai trabalha continuamente, e eu também", no Evangelho de João. E tenho disso a certeza mais absoluta. O que fica da minha parte é abrir a porta do tempo, do espaço e do coração para que Ele esteja e trabalhe, como Ele quiser.

Faço uma oração de presença, sem palavras e sem pensamentos, durante pelo menos meia hora, em que dirijo as minhas energias para Deus, dispondo-me à sua vontade. Ponho aquilo que sou diante dele, sabendo que Ele sabe o que preciso para o momento que vivo e esperando e confiando que me dará a graça para o fazer. Não espero milagres, nem visões místicas, quero apenas estar e preciso de estar assim. O que tenho de mais precioso é a Vida, e é isso que procuro oferecer em liberdade todos os dias. Se eu ofereço e me confio, Deus não pode deixar de aceitar, e assim me vai transformando, iluminando aquilo que sou e aquilo que faço.

É apenas isto... continuo a ser teimoso e a não deixar mudar muitas coisas em mim. Mas o amor é paciente, e esta paciência de Deus é também exigente, não gosto de ficar sempre igual ao dia anterior. =)

Tempo para Deus (Interno e Externo)

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Temos uma vida agitadíssima, cheia de compromissos com a família, os amigos, o trabalho. E pensamos que não há tempo para pensar nas coisas, saboreá-las e rezá-las. Ficamos à espera de dias mais tranquilos, das férias, ou do tempo oportuno em que finalmente arrumo a casa por dentro. Quando chega o momento de parar, é tanta a aceleração interior e os problemas são tão vivos no pensamento, e o corpo não consegue estar quieto. Não foi o tempo que afinal tinha desejado, descansei, mas o meu interior ficou igual.

Creio que muitas vezes temos tendência a pensar que uma coisa é a vida do dia-a-dia e os seus acontecimentos, e outra é a minha vida interior e as suas necessidades incompletas. Todos dizemos que o tempo do dualismo alma-corpo já é passado, mas continuamos a viver isto como pressuposto e a criar uma divisão em nós que não devia existir. Uma forma nova de falar de alma-corpo seria interno e externo. Mas com uma diferença fundamental. O interno e o externo não são duas dimensões separadas com as quais tenho que combater para dar espaço uma à outra, mas são eu próprio, completo. O interno é minha memória, inteligência, sensibilidade, emoção, vontade e liberdade.O externo é a minha pele, que faz parte de mim e me acompanha para onde quer que vá. Na pele estabelece-se o contacto com o mundo, as carícias e os golpes, o frio e o calor, a água e o sangue. Todo eu sou interno e externo, que se comunica, tal como a pele precisa do vasos e dos nervos para comunicar com o corpo e ter a sua função de toque e defesa.

A vida e as suas ocupações tocam-me do exterior e fazem parte de mim. Sou o que me acontece, tal como sou aquilo que sinto e penso, exactamente da mesma forma. Por isso, a vida acontece quando eu estou presente nela e levo à vida aquilo que tenho em mim. Seria preciso amar tudo, como me amo a mim próprio.

Se cada dia for capaz de ter um tempo para estar atento à vida tocada na pele, dar-me-ia conta de que não posso fazer outra coisa que agradecer por ter chegado ao fim mais completo, de pedir perdão por não ter amado tudo o que acontece e, logo, tudo o que sou, de querer melhorar já amanhã o que hoje não foi meu. Tocar a minha pele, agir internamente, partir completo para um novo dia. Três passos, alguns minutos, uma vida mais autêntica.

(dia seguinte)
Partindo da base que escrevi no post anterior, que penso ser uma forma bastante visível de perceber a minha relação com o mundo e a forma como faço parte dele, gostaria ainda de dedicar alguns pensamentos ao modo concreto como poderei no meio de um tempo ocupado, encontrar tempo para olhar a Vida com Deus.

O tempo de oração não é apenas um momento de paragem e dedicação exclusiva à meditação. É sobretudo uma atitude que posso - e devo - transportar nos momentos do dia a dia. Especialmente os seus frutos. Porém, temos necessidade de um tempo exclusivo para a oração, como o corpo precisa de respirar a plenos pulmões para se encher de maior vida e energia. E sabemos bem como é importante respirar profundamente.

Às vezes, chego a ser duro comigo mesmo, dizendo que para aquilo que realmente quero, encontro sempre tempo. De facto é assim, coisas urgentes podem esperar quando aparece improvisamente aquilo que mais quero fazer no momento. Se o que mais quero é estar no silêncio, eu e Deus, então consigo estar. Se quero mais ou menos, ou só alguns dias, então raramente estarei.

Cada pessoa encontrará no seu dia o tempo e o modo de rezar. É essencial que o queira e que precise dele como de ar para viver. O exercício que propus no post anterior é um bom início, partir do dia concreto, e amar-me enquanto o amo, perdoar-me enquanto o perdoo, ser melhor amanhã. Os frutos da constância vão surgindo e, da mesma maneira, a vontade de continuar e aperfeiçoar. Um ciclo virtuoso, rezar bem, faz querer rezar melhor. Mas só experimentando cada dia se poderá verificar como isto acontece.


PS: Este é um dos muitos modos de rezar, amanhã falarei de outro, que pessoalmente sigo, como me foi sugerido! Por hoje ficam estes conselhos, espero que ajudem. =)

 

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