17 dezembro 2009

Comprometer-me

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O que significa um compromisso?
Compromisso, na sua raiz latina quer dizer: con-pro-missum, isto é lançar, enviar para a frente juntamente com alguém. Missum é também raiz de missão, enviado. Podemos dizer que um compromisso é qualquer coisa que se faz entre duas ou mais pessoas, ou entre uma pessoa e uma instituição, que diz respeito ao futuro e corresponde a um envio, a uma missão ou, mais concretamente, a uma pro-messa.

Um compromisso, por isso, deve implicar a própria pessoa, na medida em que é esperado algo das suas acções e atitudes no futuro. Ela aceita realizar determinada coisa e ser fiel a isso.

Num compromisso, estão em jogo a verdade de uma pessoa, a sua liberdade e o respeito que tem por aquilo que assume. É algo que pede coerência. Mas claro que existem muitos níveis de compromisso. Uma coisa é comprometer-se a ajudar uma vez por mês durante um ano numa instituição de solidariedade, ou comprometer-se a fazer bem um exame, outra é fazer votos religiosos ou querer casar. Aí temos uma primeira separação entre compromisso temporário e compromisso definitivo.

Há porém, alguns aspectos que não é possível fazer compromissos temporários: não é possível ser amigo ou estar apaixonado a prazo. Pelo menos, nas atitudes e desejos iniciais. Porque temos todos experiências de como há amizades e paixões que deixam de o ser, pelos mais variados motivos, mas ao início não seríamos verdadeiros se quiséssemos ser amigos por dois ou três anos. Não faz sentido.

Um compromisso temporário, na minha opinião tem a ver com aspectos que pedem de mim algo durante um tempo específico, mas que não causa dano quando terminar esse tempo. É uma questão de saber e sentir se esse compromisso faz parte de mim e implica outras pessoas de forma irreversível.

Agora, uma coisa que une quer o compromisso temporário, quer o compromisso definitivo, é que devo estar presente naquilo a que me comprometi. Por ser um compromisso temporário, não quer dizer que esteja presente só uma parte de mim, a mais eficaz ou a menos sensível. Em tudo podemos manifestar a nossa beleza e a nossa verdade e é uma pena que vivamos um compromisso como uma tarefa. Se eliminássemos da nossa vida a palavra tarefa e a substituíssemos por compromisso, mesmo que temporário, o nosso tempo oferecido a determinada causa teria uma outra qualidade. Em tudo ser mais, em tudo ser eu mesmo. É um grande desafio ao modo como vivemos cada coisa.

08 dezembro 2009

A amizade

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A amizade é dos dons mais preciosos que podemos ter na Vida. Se todos, mais ou menos, temos um medo existencial muito profundo da solidão, são os amigos que vêm preencher esse espaço. Contudo, os amigos, sabemos bem, não servem só para satisfazer os nossos desejos de termos alguém com quem desabafar e partilhar as coisas mais importantes.

O elemento mais importante da amizade é a gratuidade. Não escolhemos os nossos amigos, as amizades profundas simplesmente acontecem, ficamos ligados a elas, fazem parte de nós. Começamos com pequenos episódios comuns, que fazem nascer sintonias de fundo e algumas certezas de que determinada pessoa é um espaço onde eu me manifesto de forma autêntica.

A amizade não dá lugar a medos e calculismos. É o espaço onde cada um existe como é, com qualidades e defeitos. A determinado momento, os próprios defeitos entram na relação e podem provocar conflitos. É o momento em que aparecemos na nossa verdade e na nossa fragilidade. E é nesse momento que a amizade se purifica. Não há verdadeiros amigos se pelo menos uma vez não se tiverem zangado. Então, aí se faz a experiência que eu te aceito, que quero o teu bem e que não vou desistir de ti. Só o ser amado pode transformar e mudar atitudes menos correctas. E este acolher-transformar acontece de parte a parte, cada um cresce no melhor que tem e integra os próprios defeitos, porque existe por trás uma verdade baseada no amor. É uma experiência muito profunda.

Tenho a sorte de ter amizades assim. E que não são muitas, porque as amizades que verdadeiramente transformam não podem ser muitas. Mas cresci e fiz crescer em aceitação, beleza e transformação da própria bondade num desejo de ser autêntico e feliz. É algo que tenho a certeza que nunca se perde, mesmo estando longe e falando de vez em quando... como se cada encontro tivesse acontecido ontem, é uma vitalidade fresca e feliz.

Há também amizades que chamamos assim, mas que, no fim de contas, não chegam à profundidade do que é a amizade. Ser amigo é algo sério, não é uma necessidade de companhia, é estar disponível sempre e com liberdade. Quando uma relação não nos deixa ser verdadeiros, quando deixamos de ser autênticos, então é um caminho incompleto ou mal começado. Possuímos ou somos possuídos, fazemos papéis que não nos servem e não falam de nós. Há sempre um modo de poder fazer destas relações uma amizade profunda, mas nestas coisas do coração, ou acontece ou não acontece. Nesse caso, a estima e o respeito são uma boa atitude. Mas nunca a mágoa e sempre o perdão. A Vida é complexa =)

05 dezembro 2009

A Trindade

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No meu primeiro ano em Roma fiz um curso de um semestre só sobre a Trindade. Daí que é um tema tão complexo que não é fácil, em poucas linhas, falar dele. Contudo, deixo algumas ideias de como entrar neste mistério, que de isso se trata. Como é mistério, é algo que, por mais que se explique, fica sempre por dizer algo. É nada mais, nada menos, que dizer quem é Deus, um só Deus que é três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Além disso, se se fizesse um questionário à porta das nossas igrejas, perguntando o que é a Trindade, estou certo que poderiam ouvir-se muitas "heresias". Espero que fique mais claro o que significa este mistério tão essencial da fé cristã.

A formulação do dogma da Santíssima Trindade tem uma evolução lenta, desde o início do Cristianismo. Desde os escritos do Novo Testamento que os cristãos estavam familiarizados com este tipo de expressões por parte de Jesus; "Quem me vê, vê o Pai", ou "Baptizai todos os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", ou "O Verbo se fez carne e habitou entre nós", entre muitas outras. A grande questão que se punha é qual a natureza de Jesus: se Jesus, que viveu entre nós, morreu e ressuscitou, é o Filho de Deus, então Jesus é Deus. E se Jesus continua presente no mundo através do seu Espírito, este é o Espírito de Deus, e também é Deus.

Vindos de uma religião monoteísta, os cristãos continuam a afirmar a sua fé no Deus Único. O mesmo Jesus expressa a sua fé neste Único Deus. E pouco a pouco, foi ficando mais claro que o Deus dos cristãos era estas três pessoas. Um único Deus, que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo. Na Trindade as Pessoas não se confundem nem se distinguem. Daí que o modo mais apropriado para falar deste mistério é de modo negativo: sem confusão e sem distinção das três pessoas divinas.

Não vou entrar em muitos pormenores mais teológicos difíceis de explicar, mas faço uma abordagem que talvez seja mais fácil perceber. Jesus, segundo o Evangelho de João é o Logos de Deus, ou seja, a Palavra, a Razão, tudo o que Deus exprime e deseja. Por isso, o Logos não está separado do Pai. Do mesmo modo, o Pai só é Pai porque tem o Filho e o Filho só é Filho porque tem o Pai. O Pai dá-se totalmente em Amor ao Filho e o Filho dá-se totalmente em amor ao Pai. De tal modo este Amor é forte que é ele próprio uma Pessoa, o Espírito Santo.

Assim, a Trindade é um Deus de relação, em que o Pai e o Filho são um Único amor recíproco, e esse amor de comunicação um ao outro é o Espírito. O Espírito Santo não fica limitado apenas a esta relação, mas da Trindade comunica-se o Amor de Deus ao mundo, através da criação, e a cada um de nós. Na Encarnação, o verbo de Deus assume a nossa natureza e a nossa história, como Deus não poderia deixar de fazer. Apenas um Amor tão absoluto consegue fazer com que Deus viva a nossa própria história, para nos fazer participar, pelo Espírito, da sua mesma Vida.


01 dezembro 2009

Advento

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Advento, como se sabe, são quatro semanas que antecedem o Natal. É um tempo forte dentro da liturgia da Igreja e é muito útil que se possa ir ao fundo desta proposta, para que o Natal tenha uma outra força.

Talvez o grande problema da pouca novidade que o Natal nos pode trazer - não só porque há dois meses a televisão e as lojas já se encarregaram de nos lembrar disso - é o facto que a festa pode ser uma rotina. Preparar o Natal é pensar nas prendas e dinheiro para as comprar, os convites e lugares da festa de família, participar nalguma acção de solidariedade, etc etc. Chega o dia, e passa... para o ano há mais.

O Tempo do Advento prepara em nós disposições de outro género. Faz-nos voltar para o interior, as nossas atitudes, mais que as coisas práticas a cumprir. Seria necessária uma consciência de que algo nos falta, para que, quando se celebra o Natal, aconteça uma Presença que ilumine e dê Vida. De facto, se virmos bem no Evangelho, o Menino Jesus não nasceu numa casa, pois estavam todas cheias e teve de nascer num lugar bem mais solitário. Corremos o risco de ter a nossa casa e o nosso coração tão cheio de embrulhos e luzes que o Menino não tem espaço para nascer!

Então, o tempo de Advento pode caracterizar-se por esta dimensão fundamental da espera. Quando esperamos, o que acontece em nós? Esperamos algo que não temos, e é precisamente a espera que dá alegria ao momento em que obtemos o que esperávamos.Todos temos imensas histórias que poderiam dar exemplo disso. Quando se espera, deixa-se o presente para centrar energias num futuro que é uma promessa feliz. Organizamos o nosso tempo para esse encontro, sonhamos com ele. Deste modo, o Advento faz-nos sair de um quotidiano sem muitas surpresas e ajuda-nos a procurar e encontrar aquilo que mais desejamos.

O Natal é a celebração do nascimento de Deus que se faz Homem. Deus que entra na nossa história, não de uma forma espectacular, mas através de uma criança recém-nascida. E não poderia ser de outra maneira, já que a predilecção de Deus por cada um de nós terá de se manifestar na forma mais concreta e próxima possível. É diante do presépio que percebemos a força da fragilidade de Deus, que se põe totalmente à nossa disposição, fazendo-se convite a acolher e adorar.

Podemos acolher esta novidade contínua de Deus, que se renova em cada Natal, de acordo com a nossa situação concreta, porque cada ano acontecem coisas diferentes e Deus entra na minha história com uma promessa e uma alegria diferentes. A grande pergunta é: onde quero que Jesus nasça? Onde quero que Deus esteja na minha história, aqui e agora?

O Advento é o tempo de preparar estas perguntas e, para isso, apresenta-nos duas figuras, que correspondem a duas atitudes:

João Baptista e a atitude de conversão. Olhar para nós mesmos, percebermos onde o nosso caminho se tem desviado do bem que sabemos e queremos para a nossa vida. A conversão não é lamento, mas orientar a nossa vida na direcção certa, comprometer-me com a minha verdade e a minha liberdade.

Maria e a atitude de entrega. Nossa Senhora aceita o convite do Anjo para ser Mãe de Jesus, sem perceber tudo, sem conhecer o que realmente estaria a acontecer. Mas é movida por uma extraordinária confiança. Se é Deus que me pede isto, quem sou eu para dizer que não? Faça-se... é o gesto mais perfeito da humanidade que é capaz de acolher Deus.

Se pudermos viver este Advento a partir destas ideias, o Natal será tudo menos uma rotina. Poderá nem ser a festa extraordinária que tivémos o ano passado, mas se a nossa esperança for completa, então o Natal significará um verdadeiro nascimento para uma Vida mais completa e autêntica.

25 novembro 2009

Deus em nós e nós em Deus

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Sugestão de Lídia

Aprofundamento de Deus em nós. Ir à raíz. 
O lugar de Deus em nós e o nosso n'ELE, à luz da Fé e da Sociedade actual. 
Confrontar a inquietude que consome com a não existência que resiste.




Cada uma destas frases daria para um tema! Mas vou tentar focar os pontos principais que possam unir estas questões. Muito ficará por dizer, mas se for necessário, é só sugerir algum aprofundamento, que o farei com o maior gosto.

Uma das frases que mais me tem acompanhado ultimamente nas minhas reflexões sobre Deus e a Vida é que não servem muitas definições. Deus não se define, não é uma ideia ou um conceito, uma projecção do melhor de nós ou uma simples expressão do divino que não se vê no quotidiano. O máximo que se pode afirmar é que Deus é Amor... mas amor, como o definimos? Quem é capaz de definir o que é amor sem logo a seguir estar a trair a definição, nas incoerências da vida, numa pálida imagem da força que é amar? Amor não se diz, vive-se, estamos nele como uma surpresa que nos invade e nos leva para dentro e para fora de nós. Quando o dizemos, já o perdemos, mas quando o realizamos, quando este acontece, o Amor mostra-se na sua verdade tocada, na vida que Ele próprio dá.

Daí que o Amor, Deus, é um ambiente, a expressão profunda e verdadeira da Vida, na Bondade, na Alegria, na Compaixão, na Entrega, na Humildade, na Esperança. Deus é a realização já conseguida desde sempre e eterna de juntar toda a nossa experiência da Vida e transcendê-la além do egoísmo e dos pequeninos horizontes. Toda a nossa Vida, pelo simples facto de ser, é já tocada e provocada para rasgar tudo o que é inútil ou sinal de uma vidinha que teimamos em considerar grande. Descer em nós é encontrar esta originalidade, de perceber a vida tal como é, como dom e como promessa. Por isso se diz "criados à imagem e semelhança de Deus", com a mesma potência do amor, e nunca conseguida totalmente.

Não somos divinos, e é ilusório o discurso de que Deus é o melhor de nós, que é o bem que fazemos ou que se mostra no mundo. Esta é uma projecção e simplificação banal e fácil de nós mesmos. Não fazemos assim honra à nossa divindade. Somos contraditórios, pouco livres, egoístas. É este o drama de ser imagem do Amor e ao mesmo tempo livres de querer sê-la ou não.

Descer a nós mesmos é subir ao dom que nos foi dado, que acredita em nós apesar de tudo. Podemos ser indiferentes a este dom, mas este  dom não é indiferente em relação a nós. Está e estará sempre, é a nossa luz  por detrás da nossa sombra, o diamante que nunca se apaga, mesmo fechado com mil cadeias. Encontrar esta luz é descobrir-se amado no mais profundo, só porque se tem este Dom, imenso, único, intransmissível, a Vida. Descobri-lo é depois querer, com todas as forças, realizá-lo e expandi-lo. É a verdade de nós mesmos que se manifesta em toda a sua glória, onde nós e Deus coincidimos, onde por um momento fomos capazes de deixar de ser pequenos mundos e amar como quem abraça o universo.

A inquietude actual nasce precisamente de estarmos já fartos de respostas fáceis e imediatas. Procuramos e viramos tudo do avesso, em distracções contínuas, em comprar o ultimo grito da moda e da tecnologia, em horas de consulta psicológica, e busca de harmonia cósmica. Por mais que estas coisas possam ajudar, na medida certa, estamos só à superfície. Enchemos um mundo de coisas que não nos servem e só escurecem a nossa luz, escondem-nos de nós mesmos. Apenas vivemos e existimos verdadeiramente quando nos assumirmos como fragilidade amada, acreditada, perdoada. Quando nos deixarmos abraçar pela Verdade, ou seja, quando Deus for o nosso ambiente.



17 novembro 2009

Vocação de irmão Jesuíta

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Este tema é mais específico, para falar de um aspecto da vocação dos jesuítas, talvez não tão conhecido, que é a vocação de Irmão. O mais próprio seria que fosse um irmão a poder explicar melhor em que consiste essa vocação, mas falarei daquilo que sei e da experiência que tenho de contacto com tantos companheiros irmãos.

Ser irmão não é, de modo nenhum, uma semi-vocação. É vocação no sentido mais pleno da palavra, uma vez que corresponde à consagração de uma pessoa a Deus e ao serviço na Igreja, através dos votos religiosos de pobreza, castidade e obediência.

A Companhia de Jesus nasceu com o grupo de primeiros companheiros, reunidos por Santo Inácio de Loiola, e estes, desde o início, tiveram muito presente que o seu modo particular de servir a Igreja e consagrar-se a Cristo seria através do ministério sacerdotal. De facto, quando a Companhia é fundada, todos tinham já sido ordenados. Porém, logo nos primeiros anos, começaram a pedir para entrar na Companhia de Jesus, homens que queriam viver a mesma missão e o mesmo carisma, mas não viam que a vocação tivesse que ser necessariamente ligada ao ministério sacerdotal. Daí que começaram a existir jesuítas que vivem plenamente a sua vocação jesuítica sem serem ordenados sacerdotes.

É certo que, durante muitos anos, os irmãos tinham como parte da sua missão ajudar os sacerdotes a que pudessem desenvolver bem a sua missão, tratando de coisas mais práticas. Por isso, os serviços de casa (cozinha, roupa, etc) eram normalmente confiados aos irmãos. Mesmo que, ao longo da história, não faltassem irmãos que se dedicaram ao acompanhamento espiritual, às missões, a trabalhos relacionados com o ensino ou a arte, etc, a imagem que foi ficando é que seriam uma espécie de vocação para coisas práticas, sem ser necessária muita preparação académica. Com o passar do tempo e, mais recentemente, isso já vai sendo ultrapassado. Quem agora entra na Companhia como irmão, participa da mesma missão de um padre, sem o exercício do ministério sacerdotal, mas com a formação necessária aos diversos apostolados a que pode ser enviado: pastoral, exercícios espirituais, economia, gestão, área da saúde, ciência, arte, ensino, etc...

Com tudo isto, há dois aspectos fundamentais a ter em conta:

- Que um irmão jesuíta é chamado, tal como um sacerdote jesuíta, a viver a mesma consagração a Deus. Ambos são religiosos. É mais fácil associar um religioso ao ministério de sacerdote, pois visivelmente faz coisas que outros não podem fazer. Mas a vocação de irmão consiste num serviço, neste sentido, mais "original" e "radical", uma vez que é chamado a viver, como leigo consagrado, o testemunho da vocação religiosa, que num padre é mais evidente.

- A Companhia sempre se identificou como um Corpo para a missão, no qual convivem unidade e diversidade. Uma mesma vocação a Deus e ao carisma inaciano, mas segundo modos diversos de a viver. Esta diversidade na unidade, não só a nível de vocação religiosa, mas também a nível de culturas, idades, mentalidades, carismas pessoais, faz parte da identidade do ser jesuíta.

Por fim, da minha experiência pessoal, confesso que a maioria dos irmãos que conheci e conheço pertencem a um tempo em que estes se dedicavam a tarefas mais práticas. Com os irmãos mais novos não se passa isso, agora existem programas de formação muito aplicados aos casos concretos que existem. Mas o que sempre me tocou é o seu testemunho de vida, que me ensinaram tanto na minha formação e agora, como padre, me continuam a desafiar. Homens de Deus, que no silêncio do seu trabalho, da sua generosidade, manifestam sempre um amor enorme a Deus e às pessoas. São capazes de relações humanas de uma simplicidade e profundidade que sempre admirei muito. São para mim verdadeiros exemplos e confirmam a minha vocação no que tem de mais fundamental.

29 outubro 2009

Devoções populares

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Quando falamos, ao menos em Portugal, de devoções populares, imediatamente nos vêm à cabeça imagens dos peregrinos em Fátima, sobretudo os que cumprem promessas de joelhos, ou então procissões com música e bandeiras, ou santos com muitas velas à frente. Imaginamos sempre pessoas de mais idade, ou com pouca cultura. E é quase irresistível dizermos: esta é uma Igreja muito diferente daquela que penso ser a correcta!

Isto em Portugal, mas um bocado por todo o mundo, da Polónia até ao México, vemos multidões que celebram a fé à volta de um santuário, uma imagem, ou uma determinada data. O que é um facto é que as devoções populares, mesmo que actualmente tenham tendência a estar mais ligadas a pessoas mais velhas, são uma expressão da fé de um enorme número de cristãos.


Em tudo isto, há dois aspectos menos positivos ligados às devoções populares: um é a falta de conhecimento teológico catequético, ou seja, uma fé pouco esclarecida e muito ligada a ritos exteriores e cumprimento de determinados preceitos. O outro aspecto, que vem ligado a isto, é a superstição, que é a parte mais "perigosa" de uma fé pouco esclarecida: estas devoções podem assumir um carácter comercial, de pagar favores a Deus ou fazer coisas para obter o seu favor. Como se fosse necessário recordar a Deus que Ele deve amar-nos.

Um aspecto que poderia fazer reflectir, principalmente a quem está mais responsável pelos centros onde tais devoções têm mais força, é se a quantidade de fiéis justifica o deixar passar sem grande problema uma série de hábitos que, no fim de contas, significam pouco para uma vida autenticamente cristã. Pode correr-se o risco de cumprir algo diante de Deus, fazer as contas com Ele e, depois, isso não se reflectir muito na vida concreta, a nível de opções de fundo. Faltaria um maior acompanhamento e envolvimento espiritual das devoções.

Pessoalmente, mesmo tendo consciência destes limites das devoções populares, dou-lhes muito valor , pois também têm muitas coisas que são extremamente positivas:

A devoção é uma expressão da fé muito mais existencial que racional. É um meio, entre muitos, de entrar em oração e relação com Jesus, mesmo através de Nossa Senhora ou de algum Santo. Por consistir normalmente em coisas muito práticas ( uma determinada oração, um gesto)  faz usar na oração o próprio corpo e a própria sensibilidade, podendo rezar de forma mais integral. Uma oração reflexiva e simplesmente meditativa, se tem a vantagem de poder ser mais esclarecida e aplicada à vida concreta, tem também os seus limites. É importante falar, sentir, cheirar e tocar, pois o nosso corpo também entra na oração.

Em segundo lugar, a devoção é também uma expressão simples do coração, sem complicar muito as coisas. Estabelece-se entre o devoto e Deus uma relação afectiva, de súplica, louvor ou agradecimento. Tem uma ingenuidade própria que é muito frontal e transparente na relação com Deus. De coração a coração. Quando esta experiência de encontro pessoal com Deus é forte, seria então necessário o poder acompanhar o seu desenvolvimento, em direcção a uma vida mais cristã a partir de dentro.

Por isso, acredito que as devoções populares podem estar ao alcance de todos, mesmo de quem está mais "avançado" na catequese. A experiência alimenta a fé, e uma fé esclarecida também dá sentido à devoção. No fim de contas, na expressão da própria fé é bastante difícil tirar a devoção, pois faltaria uma parte muito importante da nossa vida espiritual: sermos mais carne e mais coração na nossa oração.


22 outubro 2009

Quando a consciência se ilumina

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"Quando a luz se apaga é que a consciência se ilumina.
As almas são como os morcegos: vêem melhor às escuras."  
Guerra Junqueiro




O ponto de partida é esta frase. As imagens da luz e da escuridão fazem uma enorme ressonância em nós, vão além daquilo que podemos reflectir. É uma impressão instintiva, percebemos a luz em nós e nos outros, sem saber bem explicar porquê. Fascinam-nos as pessoas de olhar iluminado, e queremos a toda a força conhecer o seu segredo. Um olhar escuro faz-nos desviar o olhar, sem sabermos o que podemos fazer.


Quando nos sentimos iluminados, tudo nos corre bem, temos imensas ideias de coisas bonitas para afaer, crescemos na confiança e na ousadia. O mundo parece pequeno para os nossos desejos. Porém, quando a escuridão é o nosso ambiente, ficamos perdidos, desorientados, o mundo fecha-se até ficar do tamanho do nosso problema, um pequeno canto numa cave, sem grande capacidade para sair dali.


O que quer dizer que a consciência se ilumina quando a luz se apaga? Esta pergunta é um desafio e um confronto com o modo como lidamos com os nossos tempos e situações mais obscuras. Creio não estar errado, se propuser que são exactamente os momentos de escuridão onde encontramos a nossa verdade. Um dos nossos maiores medos é enfrentar a dúvida, a des-esperança e o facto de não nos sentirmos completos.

Querer viver sempre na luz é bom, na medida em que somos continuamente desafiados a alargar os nossos horizontes e a não ficarmos fechados em nós. Mas pode ser um risco, se formos ingénuos ao ponto de querer a toda a força ser iluminados sem aceitar as nossas sombras, e vivemos tantas vezes numa aparência, quando essa luz não passa de iluminação artificial, lâmpadas coloridas e neons publicitários que, no fim de contas, dizem pouco de nós. Fazemos parte do sistema, que evita todo o contacto com a realidade paradoxal da vida.


Nas alturas em que a escuridão é o nosso mundo, temos a oportunidade de partir do que somos: dúvida, incompreensão, fragilidade. A um certo momento da nossa Vida, o confronto com a escuridão é necessário e salutar, poder dizer com toda a simplicidade: "Também sou isto, mas isto não me impede de viver, antes pelo contrário".


A nossa consciência ilumina-se a partir de dentro, e tornamo-nos mais transparentes, olhamos para nós, ao mesmo tempo que uma luz de aceitação vai tornando os limites mais claros, até que percebamos que a fragilidade é a nosso fonte mais autêntica de força. Ser conscientes, não pelo pensamento, mas na intuição, no fundo, amarmos o nosso presente, seja como este for.


13 outubro 2009

Plenitude interior

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É a grande questão da nossa Vida. Como podemos encontrar a plenitude no nosso interior? Os grandes temas existenciais não têm uma resposta óbvia, porque cada pessoa é uma história e um conjunto de circunstâncias. Acontecem-nos diariamente coisas que nos fazem repensar as nossas opções, momentos de confirmação e outros em que as nossas certezas mais profundas ficam abaladas.

A plenitude interior é uma questão de integração e unificação de todas as dimensões da nossa Vida. Corremos o risco de dividirmos a existência em vários sectores. O que mais nos desgasta é verificarmos que há campos na nossa Vida onde conseguimos fazer progressos e outros que parece que não saímos do mesmo. Ao mesmo tempo, vivemos muito dependentes dos factores externos, ou seja, o que acontece fora de nós, o que pensam e dizem de nós condiciona-nos de tal maneira que fazemos determinadas opções só porque é suposto, ou porque todos fazem assim, ou porque não faço mal a ninguém se fizer determinada coisa.

O grande segredo está em encontrarmos um espaço de verdade que seja o início e o fim da nossa existência. Estou plenamente convencido que as coisas mais importantes da vida se resumem a muito pouco. É uma espécie de luz interior que ilumina tudo, que faz olhar para tudo o que sou e o que me acontece com o olhar correcto. Chega uma altura em que percebemos na nossa Vida que o essencial é uma palavra só nossa, algo que não nos pode ser tirado e que nos desafia constantemente.

Não há experiência mais profunda no ser humano do que aquela de ser amado. Só o sentir-se amado transforma, faz perdoar-me a mim mesmo, aceitar o que sou, querer ser o que sou. As comparações e as utopias fazem-nos, muitas vezes, olhar na direcção errada. Se o desejo comanda a Vida, então que esse desejo seja movido pelo amor a mim mesmo, com uma transparência e simplicidade que me faça dizer sem complexos: esta é a minha perfeição. Uma conquista de todos os dias, mas esta é a minha conquista.

O amor a si mesmo é tudo menos egoísta, porque é uma visão realista das próprias falhas, mas sobretudo um olhar simples e humilde sobre aquilo que sou. A humildade é reconhecer a nossa bondade e ficarmos extremamente felizes por isso. Mais uma vez, encontra-se no fundo desta dinâmica o amor, e o sentir-se amado.

Para quem acredita, é um passo fundamental dar este salto: acreditar que Deus me ama sempre, acredita sempre em mim, não desiste. Ter alguém que sempre apoia o meu desejo de perfeição é a base de todo o movimento em direcção à plenitude.

Sentindo-se amado, e reconhecido como se é, torna a pessoa mais autêntica no modo de estar perante o mundo e os outros. Move-a o desejo de simplesmente ser, fazer crescer o bem, ser radicalmente optimista, porque nada está perdido, mesmo que o pareça. Deste modo, aquele que é amado ama como a expressão mais própria da Vida. Tudo o que sente e faz se confronta com o desejo que a Vida e os outros se sintam amados como eu me sinto amado.

Por ser tão simpels este caminho, é difícil percorrê-lo, porque pensamos que as coisas importantes precisam de enciclopédias para serem explicadas. Quando pensamos e classificamos demasiado, estamos a estragar tudo. Como quando amamos alguém, não o conseguimos explicar, simplesmente é assim.

Quando vivemos em plenitude, tudo é uma oportunidade grande, desejamos afastar as coisas menos boas de nós, e desejamos só que tudo seja bonito... é o único caminho que verdadeiramente interessa.

11 setembro 2009

Porquê confessar-se?

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Se bem que ainda tenho outros dois temas para falar, e penso fazê-lo estes dias, resolvi responder a este último desafio, por ser na semana santa, que é um momento em que muitos cristãos se aproximam da confissão. Poderia falar muitas coisas sobre o sacramento da confissão, ou da reconciliação - pessoalmente prefiro esta designação -, das suas origens, o desenvolvimento porque foi passando ao longo da história até à forma em que chegou a nós hoje, ou como se desenvolve esta celebração. Mas acho mais importante focar o ponto principal, porque nos confessamos?

É, de todos os sacramentos, provavelmente o mais difícil de entender e o mais criticado. Acho que também, infelizmente, más experiências com alguns confessores ajudam muito a isso. Com coisas que tenho ouvido, não me espanta que haja pessoas que ficam 20 anos sem se confessar! Num momento que já de si é de fragilidade e manifestação da própria vida, ser sujeito a críticas condenatórias ou interrogatórios morais é muito triste. Neste caso, acho que devia ser mais claro que as pessoas deveriam saber que têm o direito de parar a confissão e fazer queixa desse sacerdote a um seu superior. Talvez nisto apresente um tom mais duro, mas acredito muito que a reconciliação é um momento de acolhimento, paz e perdão, e que esta atitude se deve manter sempre, mesmo nos casos particulares em que o confessor achar que, para bem da pessoa, deve ser mais exigente com ela.

Um outro aspecto que normalmente vem apontado à confissão é o facto de ser suficiente confessar directamente a Deus os próprios pecados e assim ter o seu perdão. Estou de acordo, porque também acredito que Deus ouve e atende as orações e os pedidos que lhe fazemos e, se lhe pedimos perdão, Deus perdoa-nos, como é próprio do seu modo de ser e agir connosco. Mas concordar com isto não quer dizer que seja suficiente, e explico porquê.

O pecado não é ter faltado a uma regra do catálogo das nossas virtudes e do nosso bom comportamento. É falta de amor, que é o egoísmo: sempre que não amamos, que fomos egoístas, que fizemos de alguém objecto do nosso interesse, que não respeitámos a beleza de nós próprios e do mundo, no fundo, quando fomos mais pequenos do que os gestos amorosos nos pedem. E quando em todas estas coisas temos consciência de que somos responsáveis pela falta de qualidade de qualquer acto, palavra ou pensamento. Quando amamos menos, ou quando pecamos, não é só a minha própria consciência que fica mal, mas alguém ou alguma coisa do mundo perdeu algo com a minha falta de amor. As primeiras comunidades cristãs tinham este aspecto muito presente e, por isso, a confissão e o perdão eram públicos, porque o pecado de um afectava a todos. Entretanto, a confissão foi-se tornando algo mais privado até chegar ao que temos hoje, em que o padre é o representante da comunidade e das pessoas a quem directa ou indirectamente, como expliquei, deixamos de dar o nosso amor. Por isso, em relação a este primeiro aspecto, é muito mais forte o facto de ter alguém concreto a quem expor os pecados.

Ligado a isto, o facto de ter de exprimir verbalmente os aspectos mais "escuros" da nossa vida, obriga-nos a um exercicio de verdade connosco mesmos e reconhecer que há coisas em nós que não nos fazem bem e não nos libertam. E essa verdade faz-nos estar arrependidos e querer mudar. Não há verdadeira mudança na nossa vida se um dia não temos a coragem de enfrentar aquilo que não gostamos em nós. E podemos arrastar-nos meses e anos com angústias que poderíamos ter entregue e abandonado mais cedo. A verdade liberta.

Deixo para o fim aquilo que acredito ser o aspecto mais rico e central da confissão. Não é fazer e dizer uma lista de pecados, mas é sobretudo receber o perdão e a paz. Creio que há poucos dons que desejemos com tanta intensidade. Perdoar-nos a nós próprios e aos outros, ser perdoado por alguém é das experiências que mais nos constroem como pessoas. E a paz, no nosso coração, na nossa consciência, nas nossas relações. E sendo dons que Deus nos dá, então são-nos dados em modo superabundante. O sacerdote ouve os nossos pecados e faz de instrumento visível do acolhimento, do perdão e da paz que Deus dá.

Continuo sempre a insistir no facto de que não somos só pensamento. Somos palavras, gestos, toques, sons. Confessar-se só a Deus não nos ajuda a viver o perdão em modo completo e abençoado. Uma palavra de compreensão, ajuda e salvação pode ser muito forte no reconstruir e recomeçar a nossa Vida. Recomeçar, mais livres, mais perfeitos, é por isso que nos confessamos.

Último Tema

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Se eu fosse enviado para um país onde não houvesse internet e tivesse que fechar o Blog, qual seria o tema que deixaria para o final.

Deixei ainda alguns temas para trás, mas que irei tratar logo que possa, porque exigem mais algum conhecimento e reflexão, mas este trata do que me move agora e por isso é mais fácil. Ou não... Especialmente porque estou a pouco mais de um mês da minha ordenação sacerdotal e os sentimentos são complexos e intensos. Por isso, escrevo sobre aquilo que sempre me tocou mais: o Acreditar contra tudo o que pode suceder. Isto é um testemunho muito pessoal.

Sempre vim a dar-me conta, nos últimos anos, do facto que não nos podemos iludir em relação à nossa própria bondade. Porque ela existe, se não, a Vida não faria muito sentido. Não consigo imaginar a minha Vida sem ser orientada para coisas grandes e bonitas. Acreditar nisso faz-me ter a confiança necessária para perceber a minha falta de perfeição e, ao mesmo tempo, a perfeição que sempre tive.

Nada é linear em nós, seja estados de espírito, seja aquilo que acontece na alma por causa de pessoas e situações que nos questionam. A nossa condição é uma fronteira e um limite entre poder e sofrer, domínio e derrota, sonho e desilusão. Aquilo que mais me cansa é saber tantas coisas sobre o Bem e dar-me conta que fico muito longe de o fazer presente. Presente actual em mim, ou dá-lo como presente ao que acontece em cada dia.

A fronteira é lugar de passagem, não nos deixa ficar donos de nós próprios e dos acontecimentos. E sempre que o tentamos fazer, imediatamente nos damos conta que há muitas coisas que deixamos escapar, ou que fogem de nós. Isso exige um esforço e um sofrimento para perceber que a liberdade é um desafio constante. Uma surpresa irritante.

Se a nossa condição é viver neste espaço e neste tempo que passa e não conseguimos controlar, seríamos muito desgraçados se nos resignássemos a deixar andar o relógio e ir cumprindo mais ou menos bem o concreto de cada dia. No fundo, sem termos nada de sólido, nada que permaneça além das mudanças do vento, das mãos que se fecham ou dos caminhos que deixam de esistir. E essa base sólida está em nós e é a bondade do nosso coração.

Nunca conheci uma pessoa má, e acredito que nunca virei a conhecer. Há pessoas, sim, que a Vida as fez defendidas, amarguradas, sem distância para pensar além do imediato. Que as fazem viver em mundos tão estreitos e angustiosos que precisam explodir para sobreviver.

E esta Bondade Universal é um dom. Como se o facto de estarmos vivos resultasse deste magnífico acontecimento de termos mergulhado no Amor, e nunca mais poderemos apagar as marcas que isso nos fez e nos continua a fazer. Temos uma perfeição incompleta, uma liberdade contraditória, mas também temos a perfeição que é dada e que não depende de mim.

Acreditar nesta perfeição faz-me melhor, porque me faz olhar como sou. As nossas experiências de Amor por alguém são fonte de vida para o mundo. E o Amor de Deus será então está fonte mais segura que tudo. Quem gosta de si, ama a Deus. Quem ama a Deus, gosta de si.

Porque para Deus somos os mais importantes, e por isso, acarinhados, sustentados, acompanhados. A marca desta presença é o desejo que todos temos da felicidade. E quando não a encontramos, quando a Vida nos tira todos os motivos para pensar nisso, então é a nossa parte sólida que se revolta. Chega de sermos pequeninos e confusos. Há sempre um ponto de partida um gesto que seja capaz de criar harmonia no caos, e uma luz que parta toda a escuridão. Eu e Presença de Deus, este acreditar que vence tudo e transforma todas as coisas.

Despojamento

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Regresso aos temas que me vão sugerindo, estes últimos dias ainda não tinha tido tempo para reflectir um bocado sobre eles, e hoje escrevo sobre o despojamento, que pessoalmente é um tema que me questiona muito!

A primeira imagem que me veio foi sobre ouvir histórias de jesuítas de antigamente que, quando iam para a teologia, que se fazia também no estrangeiro, levavam com eles apenas uma mala de mão com tudo o que precisavam. Também é verdade que na altura se usava a batina e bastava uma para vestir enquanto a outra estava a lavar =). Mas quando vim para Roma mandei por transporte nove volumes de coisas... e que é muito, talvez exagerado, vendo colegas meus que chegavam com duas malas, já que vinham de longe. E cada vez que vou de férias, é uma dificuldade enorme gerir os 20 kg de peso a que tenho direito! Sempre me pergunto nessas alturas porque preciso de tantas coisas?

A vida de hoje, estou convencido que nos obriga a ter muitas coisas: computador, roupa para diversas ocasiões, livros, objectos que nos fazem falta, para além daqueles que levamos connosco para todo o lado. Creio sempre que o grande desafio está no modo como nos relacionamos com as coisas, sobretudo como a falta de determinada coisa pode perturbar a minha paz interior. Tudo o que é perturbação interior é sinal de falta de liberdade. Talvez esse seja o critério que me pode ajudar a ter mais claro o que é essencial e o que é acessório. Se tenho medo de perder algo, é porque, de certo modo, a minha felicidade não está a passar pelo caminho melhor.

Tenho o hábito de fazer peregrinações, porque me ensinam muito sobre a Vida. A recomendação que se faz para quem caminha vários dias com a mochila às costas é: levar 10% do próprio peso. Tudo aquilo que for a mais, durante o caminho vai ser um fardo cada vez mais difícil de levar. E é bem verdade! Por duas vezes levei peso a mais e reparei que, no fim, levei coisas que não cheguei a usar e paguei um maior cansaço por isso. Aprendi que aquilo que é a mais não me ajuda a caminhar, distrai-me, torna-me mais lento, fico menos livre para olhar o que está à minha volta sem me estar a lamentar.

É por isso que o despojamento é algo irresistível para uma vida de maior qualidade. E despojamento pode não ter um significado de austeridade ou privação voluntarística. É uma questão de ir percebendo que uma vida mais simples me deixa mais espaço para a alegria e para estar comigo e com os outros de uma forma mais luminosa. Faz-nos menos calculistas. Mais agradecidos.

O despojamento material e psicológico estão ligados. Talvez seja mais fácil ter noção daquilo que posso ou não posso ter, o que ajuda à minha sobrevivência, ao meu trabalho,à minha cultura e ao meu divertimento. Mas acredito que fazer o exercício de um dia deixar de ter algo, ou não comprar alguma coisa, ou então dar a quem precise, mesmo que doa cá dentro, isto prepara o coração para uma atitude mais aberta e livre. Se me habituar a perceber nas coisas materiais que o essencial chega para aquilo que preciso, também irei perceber que a Vida tem outro sentido e outra alegria se for mais simples, mais directa, sem tantas distracções.

Isso também vale para o despojamento no modo de nos relacionarmos com os outros. Se não calcular propostas e respostas, se for eu próprio no modo como me dou, talvez me exponha mais, mas sou mais transparente. É tão bom não sermos pessoas complicadas!

O sentido da dor

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Lembro-me de ter lido, já há vários anos, um livro de François Varillon, onde ele falava deste tema. O episódio passava-se entre ele e uma jovem que estava já em fase terminal de cancro e que lhe dizia: "Não percebo e não consigo aceitar". O padre respondeu: "Eu também não percebo e não consigo aceitar". Foi uma revelação para mim, porque diante de questões tão difíceis, o melhor é estar calado e não fazer discursos fáceis que acabam quase sempre, na minha opinião, por ser um insulto a quem sofre, como se alguém falasse de fora e desse uma solução irreal ao sofrimento.

A pergunta é se a dor é necessária para significar a Vida, ou se é uma necessidade do homem. Sim, é uma necessidade, simplesmente não nos podemos iludir e pensar que a Vida poderia ser perfeita, que estamos livres de todos os perigos e protegidos por uma espécie de mão divina que evita o mal. Não é fácil falar destes temas, sem nos perguntarmos o porquê, se no fundo a criação é má, se Deus abandonou o mundo, se estamos a ser castigados. É o drama que vemos todos os dias nas notícias, o sofrimento causado e a dor que atinge aqueles que não têm culpa. Estamos tão habituados a isso que não nos choca o terremoto nas Filipinas ou a guerra no Congo. É pena que aconteça, mas não podemos fazer nada. Já nos questionamos mais com a doença de alguém conhecido ou um familiar. Finalmente, não suportamos e ficamos aterrorizados com ideia de confrontar a própria dor na primeira pessoa...

A dor e o sofrimento fazem parte da Vida. É inexplicável e causa-nos tristeza e desespero. De onde vem e para que serve? Há um sofrimento causado pelas nossas más escolhas, que nos ferem a nós próprios ou aos outros. Mais cedo ou mais tarde, sabemos que teremos as consequências da nossa falta de verdade e do nosso egoísmo. A um nível mais global, a liberdade de outras pessoas também causa sofrimento, e quem tem mais poder abusa dos mais fracos. E existe o nível da própria natureza, as células e os vírus que destroem o corpo, ou os fenómenos naturais que destroem em grandes dimensões.

Custou-me sempre entender esta frase: a origem do mal e da dor está na nossa liberdade limitada. Em relação a mim próprio e aos outros, consigo perceber o que isso quer dizer. Tenho mais dificuldade em perceber o porquê do sofrimento causado por outras potências, humanas ou naturais, quando há inocentes que sofrem. A ciência, a política, a economia e a sociologia poderão dar muitas justificações. O mal simplesmente acontece e é na minha vida que o terei de enfrentar. Como, com que intenção? Para perder tuda na mesma, quando chegar o fim? Precisamos de outras respostas.

Não falo explicitamente da resposta da fé e da religião. Prefiro dizer aquilo que qualquer pessoa, crente ou não crente, poderá perceber. A resposta da fé é a que toma este mesmo dinamismo e a formula numa linguagem própria.

Frente à dor, como a condição natural e inevitável da Vida, sou desafiado a dar uma resposta. Que pode ser fugir, ficar indiferente, desistir, lutar, aceitar, amar... Na minha vida passei por todas estas respostas. Há uma atitude que me iluminou mais: Diante da dor e da morte, como poderei estar como sou, como posso fazer a minha casa num mundo que não percebo e me custa aceitar? Falei há tempos da imagem do labirinto. A questão não é tentar uma saída frustrante do labirinto onde nos encontramos, mas sim descobrir o modo de o habitar como sou e com o muito ou o pouco que tenho para dar.

Todos os acontecimentos são uma expressão da Vida. Tal como as alegrias mais contagiantes de ter encontrado o que se quer, de poder tocar com as mãos o tesouro procurado, também a dor nos fala da mesma força da Vida. É nos extremos que a Vida se mostra com toda a sua força e potência. É mais fácil perceber isto na alegria, mas a Vida aparece-nos à frente nua e crua, violentamente, quando vemos que a podemos perder e não podemos consentir isso. É o momento de decidir amar com todas as forças o que me é dado viver. É o dom mais precioso que tenho, e quando este é tão frágil, mais o devo amar. É o amor incompreendido, que vai além de si, que é paradoxal, que pode construir a casa no labirinto escuro em que vivo. É este a única fonte de luz.

Na linguagem da fé, Deus não é a origem do mal, nem Aquele que castiga o nosso egoísmo. A liberdade para Deus é tão importante, que Ele não consegue intervir com milagres, seria tirar-nos as possibilidades radicais da existência, a nossa marca divina no mundo. Deus é a força do amor que nos ajuda a viver o que vivemos. E esta força nunca ouvi dizer que algum dia não tivesse sido dada a quem a pediu. Jesus sofreu e morreu de forma muito violenta e injusta. Deus não fez nada para o ajudar. A humana-divindade de Deus teria de estar identificada connosco em tudo. Mas o Amor do Pai acompanhou Jesus e esteve presente com toda a força, até ao fim. Um Deus que não sofresse connosco não teria nada a dizer-nos sobre a Vida.

(Ainda sobre a questão da ausência de Deus nas contrariedades da Vida)

A Vida não é fácil, não só por causa das nossas próprias experiências de desilusão, solidão, desencanto, medo, mas também pelo panorama devastador que cada dia é posto diante de nós nas notícias. A ponto de nos deixar sem palavras e perguntarmo-nos como é possível que o mal tenha uma força tão grande, parecendo capaz de orientar e controlar a própria história.

No fundo, todos percebemos o que é o bem e o amor que podemos fazer e que poderia acontecer. Mas é um facto que isso não acontece. Somos quase desafiados ou constringidos a acreditar no bem acima de toda a razoabilidade, até haver forças... até ao momento em que não resistimos mais e atiramos a toalha ao tapete.Ponto final. Mais vale preocupar-me com um equlíbrio de vida possível sem utopias. O meu mundo tem fronteiras muito bem marcadas, onde só entra quem e o que eu quiser. Mas não sou impermeável ao mundo, tudo toca e molha a minha pele, e de repente estou diante de um castelo cheio de brechas na muralha, sem me poder defender. Podemos viver assim toda a vida...

Um professor meu descrevia a vida de hoje como um gigantesco labirinto. E a grande questão não era como encontrar o caminho para sair dele, mas sim encontrar o modo de o habitar, fazendo dele a minha casa. Aprender a perder-me, mais que procurar desesperadamente saídas irreais. Acredito que não podemos olhar o facto de experimentarmos dificuldades como algo que não deveria acontecer. Estaríamos a iludir-nos. A questão está em colocar-me na dificuldade e fazê-la minha, num exercício de verdade que pode doer. Mas só posso mudar aquilo que conheço profundamente, é a dificuldade que me fará crescer em criatividade e serenidade. Olhando a nossa história, vemos que as crises foram momentos essenciais para sermos o que hoje somos. Mas não nos lembramos disso muitas vezes...

Clonagem

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Retomo estes dias a reflexão acerca de alguns temas que têm sido propostos. A clonagem é um dos temas de fronteira, que ainda se encontra em fase de desenvolvimento. Tenho alguma dificuldade em me referir a alguns aspectos da clonagem, principalmente porque não é a minha área de formação e não sou especialista nos procedimentos técnicos e na linguagem mais correcta a ser usada.

Por isso, aquilo de que parto é do que estudei nas aulas acerca da sua legitimidade ética e moral, e que impacto pode ter no nosso modo de ver e entender o ser humano, quer a nível cristão, quer a nível pessoal, independentemente dos temas religiosos, já que entendo que a pessoa humana tem um valor acima de qualquer visão particular.

A Igreja tem vindo a pronunciar-se sobre estes temas, e o organismo onde se reflectem estas questões é a Congregação para a Doutrina da Fé. Os documentos produzidos por esta Congregação estão disponíveis online e podem ser consultados por quem quiser. Gostaria de dizer que, quando se comentam as posições da Igreja, há já uma certa vontade de criticar sem ouvir os argumentos. Uma forma saudável de diálogo é ouvir e tentar perceber a outra parte, e creio que ler primeiro os argumentos propostos é o primeiro passo para uma discussão aberta e intelectualmente honesta.

Não quero dizer que também da parte de alguns sectores ou pessoas dentro da Igreja esta atitude esteja sempre presente, mas quer de uma parte, quer de outra, deve existir um equilíbrio saudável que se tem sempre de buscar, medos que se têm de perder, não partir de frases feitas e preconceitos infundados, mas partir do concreto e do desejo de fazer aumentar as coisas que são essenciais e positivas.

Nestas questões de bioética está presente o tema fundamental da dignidade da pessoa humana e do seu valor inquestionável. A base de qualquer discussão é aquilo que se entende por pessoa humana, e sem chegar a um acordo mínimo sobre este aspecto, as opiniões serão sempre divergentes. Quanto a isto, sigo fundamentalmente aquilo que a Igreja afirma, não só por ser a minha fé, mas principalmente, porque na minha liberdade e procura intelectual, vejo que é a forma que defende melhor os valores em que acredito.

Que a pessoa humana é única e tem um valor inquestionável em si mesma, independentemente da sua situação cultural, económica, de saúde, origem, etc. Sendo mais concreto, se a minha Vida é a coisa mais sagrada para mim, bem como a Vida dos meus familiares e amigos, não posso ter o direito nem a pretensão de achar que outras vidas, muito distantes e que surgem em contextos muito diferentes, merecem menos do que eu acho que mereço.

Como ponto de partida, sugiro a leitura do documento da Congregação para a Doutrina da fé, onde estão descritos os pressupostos e apresentadas as considerações acerca dos vários temas de bioética, incuindo a clonagem. Este documento é feito com a ajuda de técnicos especializados e usam uma linguagem científica com a qual não estou muito familiarizado, mas fico contente que assim seja, porque numa discussão deste género é preciso partir daquilo que acontece.

Não vou acrescentar muito mais àquilo que poderá ser lido, mas faço um pequeno resumo: a clonagem é "a reprodução assexual e agâmica do inteiro organismo humano, com o objectivo de produzir uma ou mais «cópias» do ponto de vista genético substancialmente idênticas ao único progenitor". Esta pode assumir duas formas: a clonagem com fim reprodutivo, e a clonagem com fim terapêutico ou de investigação.

A clonagem com fim reprodutivo é eticamente ilícita, porque dá origem a um novo ser humano sem referência ao contexto da procriação entre duas pessoas. É originar uma pessoa a partir de uma outra, sem a riqueza que está presente na união de duas vidas diferentes. Além disso, é um ser humano com um património genético que é uma cópia de outro e, por isso, não é algo único. No meu entender, creio não ser bom que uma pessoa seja privada da sua individualidade e originalidade genética, aquilo que biologicamente a faz única no mundo.

A clonagem com fim terapêutico é eticamente ilícita, e considerada mais grave, porque coloca uma vida humana como meio e não como fim. Consiste em criar um embrião que seja usado para um fim terapêutico numa outra pessoa doente e que depois seja destruído. Uma pessoa humana não pode ser usada desta forma, mesmo que seja com a finalidade de curar outra pessoa...

Ainda em fase de investigação estão as novas técnicas, que são apresentadas como sendo capazes de produzir células estaminais de tipo embrionário, sem, porém, pressupor a destruição dos verdadeiros embriões humanos. Ainda não se fez nenhum pronunciamento sobre este aspecto, por ser ainda uma questão muito recente. Não está ainda definido se estas células estaminais podem ser consideradas ou não um ser humano. Enquanto isso não é claro, é um procedimento que convém ter muita prudência, para evitar o que acontece na clonagem com fins terapêuticos.

São estas as linhas gerais deste tema, e fica a proposta de reflexão pessoal, sobre aquilo que para nós é a pessoa humana e a sua origem, e se o facto de ser única e irrepetível é um aspecto que nunca deve ser posto em questão. Se querer ter filhos a qualquer custo, ou querer ser curado de uma doença justifica o uso destas técnicas.

Porquê converter-se?

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A sugestão dizia mais respeito aos motivos porque uma pessoa se poderia converter ao cristianismo. Hoje começa a Quaresma, e um dos termos chave deste tempo é precisamente a conversão. Creio que não será errado falar disso, porque mesmo um cristão precisa de se converter; ser cristão não é uma espécie de carimbo para mostrar no passaporte, é muito mais que isso. Apresento o que tenho visto serem, para mim, os principais chamamentos à conversão e como estes são os motivos principais para ser cristão.

Conversão a Deus - A história do pensamento humano sempre se debateu com as questões de provar a existência de Deus. Eu próprio tenho dificuldade em racionalizar a fé, com argumentos que, mais tarde ou mais cedo, se é constrangido a dizer: "até aqui podes pensar, agora ou acreditas ou não acreditas". Não é isso. Converter-se a Deus é admitir que o Amor tem uma palavra definitiva em mim e na minha história. Que não sou eu que domino o amor, mas sou escolhido por Ele. Que o máximo das aspirações humanas é amar e ser amado, a impossibilidade de viver sozinho. E como esta força é tão potente que tem de estar além de mim, e que tem de ser Alguém, com um Nome e um Rosto. E que no cristianismo esse Alguém é uma pessoa, Jesus, que mostra o modo de funcionar de Deus e acho-o fascinante e irresistível.

Conversão de mim mesmo - A nossa raiz situa-se no facto de estarmos vivos. É dinamismo, criatividade, altos e baixos, sonhos e desilusões. Temos em nós uma consciência que o amor é melhor que o egoísmo, que o bem é superior ao mal. Mesmo que a Vida nos mostre o contrário. Mas a Vida vale pelo que se acredita e como me posiciono de frente a ela, em todas as suas dimensões. O cristianimo é exigente, porque me mostra um caminho de amor autêntico, que me faz rever a qualidade do meu amor, o compromisso com o bem, o querer superar-me cada dia em bondade e alegria. Acho que muitas pessoas não se atrevem a ser cristãs porque têm medo de amar completamente, com liberdade, responsabilidade, compreensão. E os cristãos não se atrevem, pelos mesmos motivos, a serem-no completamente.

Conversão aos outros e ao mundo - Sou fascinado pelos olhares de grandes horizontes. Quando o meu mundo são 5 amigos especiais, uma casa, um carro e um trabalho de sonho, tenho um mundo minúsculo. Fecho-me em casa com as coisas que gosto e não vejo o pôr do sol. Um olhar grande é capaz de ver as coisas que tem, de modo relativo, a não ficar preso a elas, mas sabendo amá-las do modo certo. Normalmente confundimos liberdade com desprezo. Mas não se identificam, porque quando amo alguém ou qualquer coisa, amo intensamente no espaço e no tempo que tenho para isso, de todo o coração. E não deixo de amar intensamente por partir para outras paisagens, mas sou chamado a um compromisso novo, a acrescentar o meu mundo.

Conversão à Igreja - Ser cristão não se vive sem uma comunidade. Por ser uma religião em que o amor ao próximo é tão importante como o amor a Deus, a Igreja é parte essencial do cristianismo. E tantas vezes sinto incompatibilidades e incoerências no corpo da Igreja, exactamente como as sinto em relação a mim mesmo. É uma instituição com tantas leis, tradições, coisas pesadas... mas da qual me sinto parte. Nunca me senti impedido, por parte da Igreja, de ser livre no bem e no amor. Sempre me considerei previligiado por exprimir a minha autenticidade no ambiente em que estou, e como a Igreja me ensinou a fazê-lo. E a minha autenticidade é também a minha inteligência, que me diz de não conseguir estar de acordo com tudo, mas não sou capaz de falar desde fora, como se a Igreja fosse qualquer coisa diferente de mim. Devo-lhe demasiado para a criticar desta maneira, e posso criticar porque estou comprometido com ela. Se a base for um desejo de bem, e o conseguir realizá-lo, é impossível não haver diálogo.

São estes os motivos que me fizeram e fazem ser cristão. Sinto-me maior por isso, e com consciência que posso fazer sempre mais. A principal exigência é o compromisso de cada dia, autêntico e responsável, mas não é uma luta, é sobretudo uma experiência de compreensão, perdão e confiança, nos momentos em que não sou eu próprio, mas aos olhos de Deus, sou sempre o mesmo, único no mundo.

Auto-conhecimento

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O tema do auto-conhecimento é muito vasto, e admito que também é um dos meus preferidos. Tenho pensado e rezado muito sobre o conhecer-me a mim mesmo e como isso tem sido fonte de compreensão, perdão, desejo de me aventurar e de ser melhor. Conhecer-se a si mesmo não é apenas uma questão de fazer uma lista de qualidades e defeitos, ou fazer algum teste de personalidade. Estas coisas ajudam, mas correm o risco de permanecer à superfície e não nos faz cair na conta daquilo que verdadeiramente somos. Cada pessoa é um mundo diferente e estaria a perder-me se quisesse falar de tudo, pelo que resolvi apontar algumas coisas que fui lendo e pensando, e acho que se podem aplicar a cada pessoa, ao menos como início de um caminho para se conhecer melhor.

A própria expressão "conhecer-se a si mesmo" indica que existe uma distância entre o eu que conhece e o eu que é conhecido. Vamos conhecendo partes de nós, sem nunca conseguir conhecer-nos completamente. Acredito que sou um mistério para mim mesmo, e este é inesgotável, perigoso, fascinante, digno de todo o amor. Este mistério encontra-se dentro de nós, o espaço meu onde realmente sou aquilo que sou. E como posso chegar lá?


Uma descrição do homem interior que sempre me interpelou é a seguinte: eu sou homem psiquico, homem racional e homem espiritual. Ou, em termos mais complicados, e mais personalizados, mas que explicam a mesma coisa: animus, anima e spiritus. Estas três coisas não são três partes diferentes, como se me pudesse dividir em estratos, mas são modos de funcionamento daquilo que sou, a minha origem e para onde quero caminhar.

Animus é a parte que conheço de mim todos os dias, como vejo que me comporto, como leio a minha história, os meus defeitos e qualidades óbvias. É o que, de algum modo, me faz agir, a minha parte mais consciente, a que estámais imediatamente em contacto com o mundo à minha volta.

Anima é a parte de mim que responde ao bem, que me move para as coisas bonitas, que me faz sair de mim. Entre animus e anima, existe muitas vezes conflito. Sei o que é bem, e não o faço, sei que estou a fazer mal e não deixo de o fazer. Li num texto que a anima é como a dona de casa que procura cuidar e arrumar as coisas. Animus entra em casa e toma posse dela, é muitas vezes egoísta, e vence anima com palavras bonitas e boas justificações. Temos sempre justificações para fazermos o que queremos, mesmo que saibamos que não é bom.

Spiritus é a parte mais interior de mim, aquela que anima contempla e onde arranja forças para suportar, acolher, cuidar e transformar animus. Spiritus é tudo o que nos arrasta para o amor, que nos faz livres, não esperar recompensa, de nos dar sem medida e encontrar nisso a maior alegria. E é no spiritus que encontramos a parte mais débil e, ao mesmo tempo, mais poderosa de nós. É débil porque o amor não existe sozinho, e quando a anima é incapaz de encontrar spiritus e de o amar e ser amada por ele, perde força para ajudar animus a abrir-se também ele ao amor. E é a parte mais poderosa, quando eu percebo que o amor que tenho é mim é um dom, dado em medida inesgotável. Amo porque sou amado e tenho consciência que nunca poderei dar tanto amor como aquele que recebo. Mas procuro corresponder com todas as minhas forças, no fundo amar é o que há de mais natural em mim. E é neste movimento e neste lugar onde Deus está.

Procurando simplificar: O auto-conhecimento, ao menos como eu o percebo, está em olhar estas três dimensões e ver aquelas que têm mais força. Sabendo que a minha autenticidade está no amor, que passa pelo querer fazer o bem, e fazê-lo de facto. Quando spiritus, anima e animus trabalham no mesmo movimento, sou aquele que sou. Se a determinado ponto se quebra esta corrente, posso perguntar-me onde está a raiz disso. Encontrá-la, percebe-la, ama-la e recomeçar...


PS: Que engraçado ter encontrado esta foto,de Marta Ferreira. Animus e anima de mãos dadas, os corpos a fazer um coração e a olhar o mundo através de janelas imensas.

(dia seguinte: ainda sobre o auto conhecimento)

No post anterior falei sobre aquilo que fui percebendo ser, de alguma maneira, uma boa descrição da nossa interioridade e o pano de fundo para podermos saber quem somos. Mas gostaria de acrescentar alguma coisa...

Sou um mistério para mim mesmo, e talvez seja possível que os outros me conheçam melhor que eu próprio. Talvez porque tenho espaços em mim dos quais penso que tenho o direito absoluto a ser o único explorador. Triste e iludido. E estes espaços são tantas vezes quartos escuros, fechados à chave. Tornei-me dono das minhas próprias prisões. Acredito que damos uma importância excessiva à pouca luz que temos, comparada com a dos outros. Ou ao modo pouco brilhante como estamos perante a Vida, quando sabemos bem que ela nos exige que sejamos sóis luminosos.

Conhecer-me é abrir os olhos e os braços ao que está em mim e fora de mim. Mas às coisas sérias e bonitas, no fundo, as únicas que são realmente... É ser capaz de abrir os lugares escuros e perceber que os monstros são formigas... é deixar que um fogo aqueça a casa. É olhar pela janela da alma e ver que estou na proa, e tenho diante de mim aquela paisagem que nunca pensei ver. Porque estamos continuamente a pensar que estamos bloqueados, traumatizados, condicionados?

Quando aquilo que sou é vento que enche as velas de um barco, a cor onde o artista mergulhou o pincel, a música que faz chorar alguém de consolação. É entre a coragem e a luz que me situo e existo... as minhas sombras são marionetes ridículas, só fazem aquilo que eu faço quando olho o sol... não têm um mínimo de vontade própria.

Cristianismo e outras religiões

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A questão da multiculturalidade religiosa e o diálogo da Igreja com as outra religiões é um tema que hoje tem muita força, porque em muitos países o convívio diário com outras culturas religiosas é uma realidade, com as suas riquezas, mas também com os seus desafios. Falando do contexto mais português, onde a religião católica é maioritária e a própria cultura é tradicionalmente ligada a ela, as outras religiões e confissões cristãs, se bem que existem, acabam por não ter uma expressão muito grande e nisso até podemos dizer que vivemos num ambiente bastante tranquilo e respeitoso, comparando com outros países onde isso não sucede.

Antes de mais, talvez seja uma informação desnecessária, mas pode ajudar a esclarecer algumas coisas que talvez não se saibam. Da parte da Igreja, há duas vertentes de diálogo com outras tradições religiosas. Uma é o Ecumenismo, o diálogo entre várias Igrejas cristãs, entre a Igreja católica e as Igrejas protestantes (mais presente nos paises do centro da Europa, ou países anglosaxónicos), a Igreja anglicana (sobretudo em Inglaterra) e as Igrejas ortodoxas (sobretudo na Europa de Leste, Grécia e Médio Oriente). Há outras Igrejas cristãs não católicas, mas apontei as mais numerosas e conhecidas. Todas têm como principais elementos em comum a fé em Jesus Cristo, na sua morte e ressurreição, a Bíblia, o batismo e a celebração da Eucaristia.

A outra vertente de diálogo é o diálogo inter-religioso, com as outras religiões não cristãs: Judaísmo, Islamismo, Hinduismo e Budismo, falando das mais representativas. Estas religiões têm em comum a crença no Divino, quer como Deus, quer como um pricípio de Unificação, etc.

Quando se fala destes temas, imediatamente vêm à memória a história passada de guerras e violência, a inquisição, cruzadas, colonização, excomunhões mútuas... É evidente para nós que continuam a haver infelizmente guerras e violência a vários níveis, motivadas por algumas visões da religião mais extremistas, que acabam por ser o maior contratestemunho daquilo que a religião pode trazer à humanidade que é a paz, fraternidade, ajuda aos desfavorecidos... Também devemos ter em conta que, muitas vezes, em muitas situações de guerra e necessidade, são as organizações religiosas as primeiras a entrar no terreno. Tudo isto para dizer que não é bom nem sensato rotular imediatamente a religião, seja ela qual for, como promotora de violência ou que aliena as pessoas dos problemas concretos da vida. Porque, de facto, não é assim. Se há muitos cristãos, muçulmanos, judeus, budistas ou induistas que fazem violência, e que por isso têm mais publicidade, não quer dizer que haja um número bastante maior de cristãos, muçulmanos, judeus, budistas e induistas que são empenhados nos compromissos com o seu Deus e com os outros, nas circunstâncias em que vivem.

Em 1965 foi o final, na Igreja Católica, de uma reunião de todos os bispos do mundo, que acontece muitas poucas vezes, (21 em 2000 anos de história). Foi o Concílio Vaticano II, onde a visão acerca das diferenças de religião foi radicalmente mudada. Antes poder-se-ia ter a ideia de que quem não é cristão, se não se converte vai para o inferno, ou não se salva. Mas o Concílio afirma o segunte: "Com efeito, aqueles que, ignorando sem culpa o Evangelho de Cristo, e a Sua Igreja, procuram, contudo, a Deus com coração sincero, e se esforçam, sob o influxo da graça, por cumprir a Sua vontade, manifestada pelo ditame da consciência, também eles podem alcançar a salvação eterna. Nem a divina Providência nega os auxílios necessários à salvação àqueles que, sem culpa, não chegaram ainda ao conhecimento explícito de Deus e se esforçam, não sem o auxílio da graça, por levar uma vida recta". Sei que aparecem aqui termos mais difíceis de perceber: graça, vontade de Deus, Providência, salvação eterna". Se for preciso, posso falar depois destes temas e explicar o que significam, se não escrevo hoje um tratado!

O que a Igreja refere em relação aos não crentes na fé cristã, é que o mais importante e que realiza o homem é levar com compromisso uma vida de bem, e que procura o bem dos outros, do mundo e a Deus, com sinceridade de coração. A Igreja não condena um bom muçulmano, ou um bom judeu ou um bom anglicano. Na sua própria religião, cada um deve viver de coração aquilo que lhe é transmitido. As religiões têm em comum, apesar das diferentes linguagens e culturas, o amor a Deus, o respeito e o serviço aos outros, sobretudo os pobres e necessitados, e a construção da paz. Acho muito bonito que o espírito humano tenha sempre associado a relação com Deus com um compromisso com o próximo, na paz e no bem. Não há religiões do egoísmo ou da guerra, mas sim leituras erradas dessas religiões.

Nos últimos anos, tem havido, por isso, um esforço de diálogo entre igrejas cristãs e outras religiões, não para se converterem uns aos outros, mas para partirem de bases comuns, a fim de ajudarem a promover a paz e a justiça e a tornar visível o amor de Deus pela humanidade. Creio que todos se foram dando conta que é impossível o regresso ou a existência de uma única religião, mas que é a partir das diferenças que se pode dar o maior sinal de unidade, rezando juntos e trabalhando juntos pela paz, pelo perdão e pela justiça. Algo se começa a fazer, mas ainda se poderia fazer muito mais.

Existe também um enriquecimento mútuo que vem sendo aprofundado. Dou alguns exemplos: no âmbito cristão, os estudos protestantes sobre a bíbila ajudam muito as outras igrejas a percebê-la e a lê-la. A religião cristã tem uma fortissima parte prática, que nasce do amor ao próximo, e isso também desafia outras sensibilidades religiosas mais voltadas para a interioridade. O budismo e o hinduismo podem ajudar muito o tipo de oração cristã, com métodos de usar o corpo, a respiração e a concentração. As igrejas ortodoxas priveligiam muito o uso dos sentidos nas celebrações (música, perfumes, imagens), transmitindo uma presença do divino mais tocável, e que desafia também o modo algo triste com que, por vezes, os católicos estão na missa. Estes elementos vão já aparecendo, mas ainda se poderia fazer mais.

Há, por fim uma questão, que talvez se tenham posto. Se o essencial é o bem, a paz, a boa consciência e a ajuda aos outros, como é que a Igreja diz ter a religião verdadeira? Não são todas iguais? E o mesmo em relação às outras religiões que se afirmam verdadeiras. É sempre uma questão de entender o que quer dizer a Verdade. A Verdade é que todos os homens são amados por Deus e chamados a amá-Lo. Quando isto acontecer plenamente, acontece o chamado Reino de Deus, que se está a construir, mas não está completo. A Igreja é o sinal que expressa, de forma humana - e por isso também contraditória, como todos nós - esta união que há-de acontecer. Não há coincidência entre Reino de Deus e Igreja, mas a Igreja é e deveria ser cada vez mais o referente desta Verdade que está entre nós.

Contemplação

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O nosso dia-a-dia é demasiado cheio e o tempo não chega para aquilo que queremos. Estamos sempre a queixar-nos disso, porque é que o dia não tem mais horas. O grande problema da contemplação está na consideração de uma série de pressupostos que é essencial termos em conta. Há muitos conselhos práticos sobre modos de fazer oração, escrevem-se todos os anos imensos livros sobre isso. Mas há aspectos que devemos ter presentes antes de colocar essa questão, e aos quais me vou referir:

- Temos uma concepção utilitarista do tempo. O tempo serve para fazer qualquer coisa, obter um resultado. A velocidade das nossas acções e das nossas expectativas exigem uma resposta rápida e imediata. Mas o tempo de Deus é diferente. Ele é infinitamente mais paciente que nós, e nós não somos pacientes. Uma imagem do tempo de Deus vem expressa, como há tempos ouvi um professor dizer - que me abriu imensos horizontes - numa expressão de S. Paulo. Ele escreve assim: "Digo-vos,porém, irmãos, que o tempo é breve" (1Cor 7,29). A expressão "é breve" no original grego, não quer dizer que demore pouco tempo, ou faltem algumas horas ou dias para algum acontecimento. S. Paulo usa um verbo utilizado na navegação, que significa amainar ou recolher as velas de um barco. Quer dizer que o tempo se recolhe, se dobra sobre si mesmo, e a eternidade de Deus, como uma vela infinita, condensa-se no momento presente. O tempo de Deus no nosso tempo é esta eternidade oferecida à nossa contemplação. Este é o tempo da oração, segundo o tempo de Deus.

- Por isso, a oração não é um tempo contado, tirado a ferros à nossa disponibilidade, mas é o tempo entregue. É estarmos presentes em profundidade, indo além de nós próprios. Não é regatear minutos e esperar paz de espírito ou comunhão com o mundo e os outros. É um momento de verdade, em que a eternidade está presente com uma força ao mesmo tempo doce e devastadora. Não se encara este tempo com um relógio a servir de escudo, mas de peito aberto a todos os ventos que surgirem. Deus joga-se todo em cada momento do nosso dia, mas na contemplação é quando estamos totalmente disponíveis a perceber isso.

- A contemplação não é uma coisa exclusiva de padres e freiras. Aliás, todas as religiões, e o cristianismo não foge à regra, privilegiam o tempo de contacto com a divindade. Em orações e momentos do dia mais ou menos estruturados, mas que é uma espécie de respiração vital da própria religião. Não existe um cristão no sentido mais forte da palavra, se não tem este contacto único e pessoal com Deus. Rezar a partir da Bíblia, ou ir à Missa, são partes essenciais da fé, mas estou a falar do nível mais profundo, a minha Vida diante da Vida de Deus.

- Por isso, querer contemplar, em qualquer estado de vida, solteiro, casado, ou religioso, é uma opção de fundo. Acredito que é a opção mais autêntica e que expressa mais a nossa força de vontade e o querer alargar os nossos horizontes além do impossível. A base da contemplação é a convicção que Deus está e trabalha em nós, independentemente se rezamos meia-hora ou cinco horas. O tempo de Deus, como disse, é muito diferente do nosso. A Deus basta tocar, na sua eternidade, um minuto do nosso tempo para mudar toda a nossa Vida. Não sei até que ponto acreditamos nisto... Jesus diz no Evangelho que a fé move montanhas. Porque não havemos de acreditar nisto?

- A contemplação, finalmente, não pode ser um tempo para esquecer o mundo e os seus problemas. É, pelo contrário, o momento por excelência para os tornar presentes. É o desafio de não buscar raciocínios e desculpas, classificar-me a mim e aos outros e não chegar a nenhuma conclusão existencial que seja capaz de transformar. Quem vê a sua verdade, pode amá-la, percebendo como esta é amada. E amando,aceitamos e perdoamos. E aceitando e perdoando, temos um coração capaz de coisas muitos grandes. O outro lado da oração é a acção do amor. E Jesus diz, mais uma vez, que pela árvore se conhecem os frutos. Aquilo que fazemos fora, mostra a qualidade das nossas raízes. Sem a contemplação, nunca teremos a possibilidade de amar radicalmente. Ficaríamos ao nível de uma filantropia de circunstância - o que em si é bom - mas não estaríamos todos naquilo que estamos a fazer.

Para resumir. O que tenho reflectido e vivido acerca da contemplação é que é um tempo que não me pertence, que não posso dominar. Que tenho que escolher ter isto como o modo de estar na Vida, aquilo que me define radicalmente. Sem uma profunda vida interior, corremos o risco de tudo ser mais um número, um obstáculo, ou um prazer efémero. Não me transformo, nem transformo. E isto está ao alcance de todos.

Finalmente, depois de ter todos estes aspectos presentes, é o tempo de começar a realizar isto concretamente. A atitude de confiança e disponibilidade inicial é o mais importante. Então, com o realismo das minhas possibilidades escolho um tempo do meu dia para esta eternidade. Quinze minutos, meia-hora, uma hora. Pessoalmente, aconselharia pelo menos meia-hora, que, sinceramente, acho muito difícil que não se tenha durante o dia. Temos sempre tempo para o que verdadeiramente queremos.

E o que fazer este tempo? Simplesmente estar, ou repassar o meu dia e o que foi acontecendo, ou meditar alguma passagem da Bíblia, ou de um livro que me ajude. Nesta altura, um bom livro sobre oração pode dar muitos bons conselhos e cada um poderá encontrar o seu modo próprio. Todos os modos de rezar são bons. Mas o que é mais fundamental é o estar presente. E certamente a nossa Vida muda, de forma imperceptível, com avanços e recuos. Mas aí está... o tempo de Deus não é o nosso tempo e os resultados d'Ele não são os nossos resultados. Estaremos toda a Vida a perceber isto e a entusiasmarmo-nos cada vez mais.

 

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