17 janeiro 2011

Fé e coerência

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Volto aos temas, alguns já bastante atrasados, e este particularmente reveste uma importância enorme. Sob muitos aspectos, a questão de testemunhar a Cristo na nossa cultura actual será uma pergunta diária e um desafio constante para aqueles cristãos que se preocupam em marcar alguma diferença, no meio em que vive.

É fácil cair instantaneamente em discursos mais moralistas, que acabam já por ser lugares-comuns, que podem ter tanto de razão como de injustiça. Frases do género "vão à missa e são piores do que os outros" acaba por ser um refrão que não me agrada. Por dois motivos: porque, de facto, podemos ver que cumprir uma série de preceitos de religião acaba, nalguns casos, por estar muito desligado das opções e do estilo concreto de vida; e, por outro lado,  não me agrada porque é extremamente redutor e coloca as pessoas que vão à missa todas "dentro do mesmo saco", como quem fala de fora, sem experiência, o que me parece sempre pouco honesto.

A grande questão está, a meu ver, naquilo que poderemos chamar o carácter performativo do ser cristão. O que "forma" o cristão, o que identifica um cristão, qual a sua essência? O mais difícil de explicar é que tudo, em resumo e no essencial, se condensa no facto de que ser Cristão é pertencer a Cristo de modo total. Ir à missa, cumprir os mandamentos, viver segundo as orientações da Igreja é apenas a parte externa - e sempre importante - daquilo que interiormente se vive. 

O que define o cristianismo, desde a sua origem é o facto de que Deus se manifesta e comunica como Pessoa, em Jesus. E se existem pessoas, existem relações. O cristianismo é uma religião de tacto e contacto, de olhar, ouvir, dialogar, caminhar juntamente. É a religião que fala através do gesto, em que a Palavra é Carne, em que dizer e fazer coincidem. Ao cristianismo pertence uma extraordinária força de síntese e comunhão, de unificação da vida naquilo que é fundamental, o amor que se expressa e concretiza em tudo.

O amor de Deus não é um conceito, mas sim uma experiência. Sem oração, não se tem essa experiência, sem arrependimento, não há conversão, sem amor, não há serviço. Daí que o cristão é essencialmente um apaixonado pelo Deus que conhece, e, por isso, é um apaixonado pela vida, é responsável pela felicidade dos outros.

O cristianismo é frequentemente criticado, e com razão, por uma forma "burguesa" de estar, quando se chega ao ponto de ficar instalados no que se conhece, e aí as regras começam a funcionar como critérios de pertença, sem que isso implique necessariamente uma adesão de fundo, profundamente espiritual e existencial. No fundo de tudo isto, fica instalado um dualismo entre o que se é e o que se faz. Está a falhar qualquer coisa importante.

Um cristão centrado em Cristo vê as regras como uma consequência, porque apreende existencialmente o seu sentido: a missa é participação em comunidade do mistério da presença de Deus no meio de nós e da comunhão que isso implica. As regras nascem de uma percepção da responsabilidade que cada um tem na qualidade humana do seu modo de estar na vida e nas relações, marcadas pela verdade, compromisso e  transparência. A justiça, a honestidade e a solidariedade não são "modas sociais" mas a necessidade que cada pessoa seja respeitada na sua dignidade, como um irmão, o não ser capaz de tolerar estar bem, vivendo ao lado de situações de injustiça e dor.

Toda a coerência de vida cristã nasce desta relação que me identifica com Jesus. E preenche de tal modo a vida que me torna capaz de superar as críticas, as incompreensões, o não fazer como todos fazem. Marcar a diferença pela autenticidade de vida é um desafio difícil, mas quem realmente quer viver assim, também não lhe faltará a graça para o conseguir. No fundo, um cristão é um místico, e a mística não está, de todo, reservada a quem está fechado num convento ou fugiu para o deserto.

31 outubro 2010

Canto Gregoriano

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Há uns meses atrás, o António Valério pediu-me para eu escrever alguma coisa sobre o Canto Gregoriano. Comecei a escrever… mas depressa abandonei aquilo que tinha começado. Já existem tantas introduções ao Canto Gregoriano que a minha não traria nada de novo. Toda a gente sabe mais ou menos o que é o Canto Gregoriano, e a internet pode ser uma preciosa ajuda para quem quer aprofundar estes e outros temas. Também não queria entrar em polémicas nem em contrastes ideológicos que, quando se trata de uma realidade mística e sagrada como a Liturgia, só nos podem fazer mal. Tenho a firme convicção de que fazer da Liturgia uma questão ideológica, de esquerda ou de direita, conservadora ou progressista, é uma profanação. Não nos podemos esquecer que a Liturgia é de ordem mística. É dom de Deus para nos tocar de salvação… e o Canto Gregoriano não é um absoluto.

Por isso escrevo algo muito diferente… pessoal… uma experiência de vida e da Vida, onde também entra o Canto Gregoriano.

Era a Noite de Natal. Começava a celebração na Basílica de S.Pedro no Vaticano presidida pelo Papa. O toque de Deus atingiu-nos logo desde o primeiro momento da celebração (para não falar da preparação…). Em vez de uma esfusiante canção natalícia de centro comercial, fomos envolvidos por palavras sagradas, que se exprimiam num música interior, profunda, expressiva, contida, sóbria e comovente. Era a tradicional antífona de entrada da Noite de Natal em Canto Gregoriano: Dominus dixid ad me: Filius meus es tu. Hodie genui te (O Senhor disse-me: tu és meu Filho. Eu gerei-te hoje)…

Senti-me imediatamente tocado pelo Mistério do Natal: naquela noite cantávamos o mistério tremendo da nossa real participação na divindade. A antífona põe na boca de Jesus a expressão do salmo, mas, ao ser cantada por nós hoje, já não cantamos um evento histórico encerrado no passado. Cantamos a nossa participação no mistério de Jesus Cristo no nosso hoje, que na Liturgia se torna um Hoje de salvação, de real participação. É verdade: com aquelas palavras eu cantava comovido o amor louco de Deus que me tocava e abraçava de sentido e de salvação. Naquela noite eu já não era mais um ser tocado de tantas fragilidades e doenças, apenas nascido e já a declinar para a morte, porque naquela noite o Senhor disse-me: tu és meu filho. Eu gerei-te hoje!

A celebração prosseguiu. Depois da belíssima e comovente homilia do Papa ficámos em profundo silêncio a meditar nas suas palavras. Ele falava-nos de Deus… que se fez criança… para que não tivéssemos medo dele…

Depois de um profundo silêncio meditativo levantámo-nos para o canto do Credo. Era o Credo gregoriano da Missa de Angelis. E porque Deus tomou a sério a Encarnação, naquela noite também nós tínhamos que sentir no nosso corpo o tremendo mistério no qual estávamos a participar. Cantámos o Credo até às palavras Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis (Por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus). Terminadas aquelas palavras suspendeu-se o canto…

Naquele momento Papa ajoelhou-se em profundo recolhimento, e com ele a multidão que rodeava o altar da Basílica, que ficou completamente silenciosa. Como todos os outros, também eu estava com os dois joelhos no chão de mármore frio e duro, com os olhos fechados… e numa paz profunda…

Naquele momento os miúdos do Coro da Cappella Sistina começaram com muita delicadeza a cantar as palavras do Credo Et incarnatus est de Spiritu Sanctu ex Maria virgine, et Homo factus est (E encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem)...

Já não era a famosa melodia gregoriana que tinha ficado interrompida, mas uma moderna composição polifónica belíssima… Tinha a leveza e o dançar delicado das nuvens perfumadas do incenso… era música… mas cheia de silêncio…

Quando as palavras do canto chegaram ao fim, … et homo factus est (e se fez homem), nós continuávamos ainda com os joelhos teimosamente plantados no chão de mármore frio e duro, com os olhos cerrados e comovidos… Tinham terminado as místicas palavras que narravam a Encarnação da Palavra… As palavras tinham-nos deixado e a música tinha cedido completamente o lugar ao silêncio… mas nós não tínhamos ficado sozinhos:

naquela suspensão do tempo, da acção e da música,
sentíamo-nos verdadeiramente envolvidos e abraçados pela protectora nuvem da Presença,
num silêncio profundíssimo,
a jorrar de bondade e de consolação,
de alegria e de paz…

(Era a noite do Deus-connosco…)

Fernando António,sj


PS: Adiciono um vídeo, precisamente do momento que o Fernando fala, na Missa de Natal na Basílica de S. Pedro. 



16 maio 2010

Entusiasmo

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Aproveito a visita do Papa Bento XVI a Portugal, para reflectir sobre este tema do entusiasmo, que certamente será um dos sentimentos mais presentes nos fiéis católicos em Portugal, depois destes dias tão marcantes. Entusiasmo tem a sua origem nas palavras gregas en (dentro) theos (Deus), e pode-se traduzir com a ideia de "ter Deus dentro de si". Isto significa aquela força interior que nos acende e nos motiva, que nasce de uma sintonia criada com algum aspecto que nos faça orientar a nossa acção de um modo que nos empenha completamente.

Com muita pena, não estive em Portugal nos dias da visita do Santo Padre, mas acompanhei atentamente, graças à possibilidade das transmissões em directo na internet, todas as celebrações. Senti a profunda comoção transmitida no rosto de Bento XVI e nos milhares de pessoas que o recebiam. Por várias vezes, tive a oportunidade de, aqui em Roma, poder ver de perto o Papa e descobrir nele um homem próximo, afectivo na sua timidez e no seu pouco à-vontade no meio das grandes multidões. Contudo, o que mais me tocava era a sua afabilidade e, sobretudo, a profundidade das suas palavras. É impossível não ficar preso das suas palavras do início ao fim dos seus discursos. Portugal teve a sorte de ouvir em primeira pessoa alguns dos discursos mais profundos e significativos que este Papa dirigiu à Igreja.

Há uma diferença que encontrei entre as celebrações de Roma e o que pude ver em Portugal. Em Roma, o Papa apresenta-se no mesmo estilo, com o mesmo sorriso (apesar de algumas vezes ter notado algum cansaço) e a mesma força de unir as pessoas à sua volta através das suas palavras. Porém, em Roma, tudo é mais organizado, definido, e o ambiente da Praça de S. Pedro e da basílica conferem outra solenidade. Além disso, para além da fé de muitos peregrinos presentes, mistura-se inevitavelmente a sensação de estar diante de mais uma atracção turística, da parte de muitas pessoas que vêm a Roma e para as quais ver o Papa faz parte do programa. Em Portugal, tudo era mais espontâneo, mais "corpo", com maior sintonia. Era uma pura expressão da fé e do desejo de esperança que movia o coração dos portugueses. Isso notava-se claramente, a fé transformou-se numa enorme festa!

É natural que o entusiasmo fosse o sentimento mais central destes dias. Ninguém, mesmo os mais cépticos, terão ficado indiferentes à surpresa desta recepção ao Papa. Especialmente quando, da parte de tantos sectores da sociedade e de alguma comunicação social, se procurava perturbar, desde há vários meses, o ambiente da sua visita, aproveitando a difícil situação que vive a Igreja nestes dias. Esta situação dos escândalos e da descristianização crescente da Europa produz uma profunda dor em todos os cristãos, e um sentimento de desânimo, perguntando-nos como será o futuro da Igreja no nosso país e no mundo. Porém, esta visita, trouxe a todos esperança e uma verdadeira experiência de conversão interior, à qual o Papa se referiu na sua entrevista que deu no avião a caminho de Portugal.

Deste modo, a conversão que marcou o início da sua visita, não pode estar separada do entusiasmo que marcou o seu fim. Converter-se é orientar o coração para um caminho interior, em direcção à verdade e autenticidade do Amor. Só vivendo profundamente a experiência de saber o que é essencial nas nossas vidas, nos dá a força e o espírito de orientar a vida, em todos os seus aspectos, para concretizar algo grande e bonito, sermos realmente "lugares de beleza". O entusiasmo não nasce de uma experiência emotiva pontual, mas é a consequência daquilo que nos toca e constitui mais profundamente. É Deus-dentro-de-nós. É este o entusiasmo que vivemos nestes dias e que nos desafia a continuar, como cristãos convertidos ao Amor, mais Igreja.

 

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