31 outubro 2010

Canto Gregoriano

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Há uns meses atrás, o António Valério pediu-me para eu escrever alguma coisa sobre o Canto Gregoriano. Comecei a escrever… mas depressa abandonei aquilo que tinha começado. Já existem tantas introduções ao Canto Gregoriano que a minha não traria nada de novo. Toda a gente sabe mais ou menos o que é o Canto Gregoriano, e a internet pode ser uma preciosa ajuda para quem quer aprofundar estes e outros temas. Também não queria entrar em polémicas nem em contrastes ideológicos que, quando se trata de uma realidade mística e sagrada como a Liturgia, só nos podem fazer mal. Tenho a firme convicção de que fazer da Liturgia uma questão ideológica, de esquerda ou de direita, conservadora ou progressista, é uma profanação. Não nos podemos esquecer que a Liturgia é de ordem mística. É dom de Deus para nos tocar de salvação… e o Canto Gregoriano não é um absoluto.

Por isso escrevo algo muito diferente… pessoal… uma experiência de vida e da Vida, onde também entra o Canto Gregoriano.

Era a Noite de Natal. Começava a celebração na Basílica de S.Pedro no Vaticano presidida pelo Papa. O toque de Deus atingiu-nos logo desde o primeiro momento da celebração (para não falar da preparação…). Em vez de uma esfusiante canção natalícia de centro comercial, fomos envolvidos por palavras sagradas, que se exprimiam num música interior, profunda, expressiva, contida, sóbria e comovente. Era a tradicional antífona de entrada da Noite de Natal em Canto Gregoriano: Dominus dixid ad me: Filius meus es tu. Hodie genui te (O Senhor disse-me: tu és meu Filho. Eu gerei-te hoje)…

Senti-me imediatamente tocado pelo Mistério do Natal: naquela noite cantávamos o mistério tremendo da nossa real participação na divindade. A antífona põe na boca de Jesus a expressão do salmo, mas, ao ser cantada por nós hoje, já não cantamos um evento histórico encerrado no passado. Cantamos a nossa participação no mistério de Jesus Cristo no nosso hoje, que na Liturgia se torna um Hoje de salvação, de real participação. É verdade: com aquelas palavras eu cantava comovido o amor louco de Deus que me tocava e abraçava de sentido e de salvação. Naquela noite eu já não era mais um ser tocado de tantas fragilidades e doenças, apenas nascido e já a declinar para a morte, porque naquela noite o Senhor disse-me: tu és meu filho. Eu gerei-te hoje!

A celebração prosseguiu. Depois da belíssima e comovente homilia do Papa ficámos em profundo silêncio a meditar nas suas palavras. Ele falava-nos de Deus… que se fez criança… para que não tivéssemos medo dele…

Depois de um profundo silêncio meditativo levantámo-nos para o canto do Credo. Era o Credo gregoriano da Missa de Angelis. E porque Deus tomou a sério a Encarnação, naquela noite também nós tínhamos que sentir no nosso corpo o tremendo mistério no qual estávamos a participar. Cantámos o Credo até às palavras Qui propter nos homines et propter nostram salutem descendit de caelis (Por nós homens e para nossa salvação, desceu dos céus). Terminadas aquelas palavras suspendeu-se o canto…

Naquele momento Papa ajoelhou-se em profundo recolhimento, e com ele a multidão que rodeava o altar da Basílica, que ficou completamente silenciosa. Como todos os outros, também eu estava com os dois joelhos no chão de mármore frio e duro, com os olhos fechados… e numa paz profunda…

Naquele momento os miúdos do Coro da Cappella Sistina começaram com muita delicadeza a cantar as palavras do Credo Et incarnatus est de Spiritu Sanctu ex Maria virgine, et Homo factus est (E encarnou pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria, e se fez homem)...

Já não era a famosa melodia gregoriana que tinha ficado interrompida, mas uma moderna composição polifónica belíssima… Tinha a leveza e o dançar delicado das nuvens perfumadas do incenso… era música… mas cheia de silêncio…

Quando as palavras do canto chegaram ao fim, … et homo factus est (e se fez homem), nós continuávamos ainda com os joelhos teimosamente plantados no chão de mármore frio e duro, com os olhos cerrados e comovidos… Tinham terminado as místicas palavras que narravam a Encarnação da Palavra… As palavras tinham-nos deixado e a música tinha cedido completamente o lugar ao silêncio… mas nós não tínhamos ficado sozinhos:

naquela suspensão do tempo, da acção e da música,
sentíamo-nos verdadeiramente envolvidos e abraçados pela protectora nuvem da Presença,
num silêncio profundíssimo,
a jorrar de bondade e de consolação,
de alegria e de paz…

(Era a noite do Deus-connosco…)

Fernando António,sj


PS: Adiciono um vídeo, precisamente do momento que o Fernando fala, na Missa de Natal na Basílica de S. Pedro. 



16 maio 2010

Entusiasmo

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Aproveito a visita do Papa Bento XVI a Portugal, para reflectir sobre este tema do entusiasmo, que certamente será um dos sentimentos mais presentes nos fiéis católicos em Portugal, depois destes dias tão marcantes. Entusiasmo tem a sua origem nas palavras gregas en (dentro) theos (Deus), e pode-se traduzir com a ideia de "ter Deus dentro de si". Isto significa aquela força interior que nos acende e nos motiva, que nasce de uma sintonia criada com algum aspecto que nos faça orientar a nossa acção de um modo que nos empenha completamente.

Com muita pena, não estive em Portugal nos dias da visita do Santo Padre, mas acompanhei atentamente, graças à possibilidade das transmissões em directo na internet, todas as celebrações. Senti a profunda comoção transmitida no rosto de Bento XVI e nos milhares de pessoas que o recebiam. Por várias vezes, tive a oportunidade de, aqui em Roma, poder ver de perto o Papa e descobrir nele um homem próximo, afectivo na sua timidez e no seu pouco à-vontade no meio das grandes multidões. Contudo, o que mais me tocava era a sua afabilidade e, sobretudo, a profundidade das suas palavras. É impossível não ficar preso das suas palavras do início ao fim dos seus discursos. Portugal teve a sorte de ouvir em primeira pessoa alguns dos discursos mais profundos e significativos que este Papa dirigiu à Igreja.

Há uma diferença que encontrei entre as celebrações de Roma e o que pude ver em Portugal. Em Roma, o Papa apresenta-se no mesmo estilo, com o mesmo sorriso (apesar de algumas vezes ter notado algum cansaço) e a mesma força de unir as pessoas à sua volta através das suas palavras. Porém, em Roma, tudo é mais organizado, definido, e o ambiente da Praça de S. Pedro e da basílica conferem outra solenidade. Além disso, para além da fé de muitos peregrinos presentes, mistura-se inevitavelmente a sensação de estar diante de mais uma atracção turística, da parte de muitas pessoas que vêm a Roma e para as quais ver o Papa faz parte do programa. Em Portugal, tudo era mais espontâneo, mais "corpo", com maior sintonia. Era uma pura expressão da fé e do desejo de esperança que movia o coração dos portugueses. Isso notava-se claramente, a fé transformou-se numa enorme festa!

É natural que o entusiasmo fosse o sentimento mais central destes dias. Ninguém, mesmo os mais cépticos, terão ficado indiferentes à surpresa desta recepção ao Papa. Especialmente quando, da parte de tantos sectores da sociedade e de alguma comunicação social, se procurava perturbar, desde há vários meses, o ambiente da sua visita, aproveitando a difícil situação que vive a Igreja nestes dias. Esta situação dos escândalos e da descristianização crescente da Europa produz uma profunda dor em todos os cristãos, e um sentimento de desânimo, perguntando-nos como será o futuro da Igreja no nosso país e no mundo. Porém, esta visita, trouxe a todos esperança e uma verdadeira experiência de conversão interior, à qual o Papa se referiu na sua entrevista que deu no avião a caminho de Portugal.

Deste modo, a conversão que marcou o início da sua visita, não pode estar separada do entusiasmo que marcou o seu fim. Converter-se é orientar o coração para um caminho interior, em direcção à verdade e autenticidade do Amor. Só vivendo profundamente a experiência de saber o que é essencial nas nossas vidas, nos dá a força e o espírito de orientar a vida, em todos os seus aspectos, para concretizar algo grande e bonito, sermos realmente "lugares de beleza". O entusiasmo não nasce de uma experiência emotiva pontual, mas é a consequência daquilo que nos toca e constitui mais profundamente. É Deus-dentro-de-nós. É este o entusiasmo que vivemos nestes dias e que nos desafia a continuar, como cristãos convertidos ao Amor, mais Igreja.

08 maio 2010

Redenção

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A Redenção é um tema da fé cristã que toca muitos aspectos. Será difícil explicitá-los todos, mas procurarei tocar os pontos mais importantes. 

Em primeiro lugar, redenção significa, na sua etimologia hebraica e grega, segundo os diversos contextos: "libertar, soltar, resgatar". Redimir alguém seria libertá-lo de alguma obrigação, escravidão, etc, através do pagamento de dinheiro ou de um gesto que desse cumprimento a essa libertação. Em contexto religioso, a redenção era vista como a libertação do pecado, devendo, por isso, ser oferecido um sacrifício que perdoasse os pecados. Era o que se fazia no templo em Jerusalém, em que os sacerdotes ofereciam sacrifícios de animais para redimir o povo e as pessoas singulares dos seus pecados. Deste modo, o termo redenção está relacionado com outros termos que se usam na linguagem teológica, como salvação, perdão, expiação, sacrifício. 

A comunidade cristã, desde a sua origem, viu na morte de Jesus na cruz o sacrifício que o Filho de Deus fez, entregando a sua vida para libertar os homens dos seus pecados. É por isso que os discípulos o chamam Cordeiro de Deus. Além disso, em cada Eucaristia, os cristãos continuam a recordar e fazer presente este mesmo sacrifício e entrega de Jesus na cruz. Na sua morte e ressurreição, são perdoados os pecados da humanidade, Jesus pagou definitivamente o preço da nossa salvação.

Esta linguagem pode criar alguns mal entendidos, na medida em que podemos ficar a pensar que Deus necessita que alguém morra ou faça sacrifícios pelo pecado de outros; como se a salvação tivesse um preço a pagar e Deus só desse o perdão em troca de algo. O que é importante é reflectirmos sobre o que está por detrás da realidade do pecado e da redenção. O pecado, na medida em que é oposição ao amor e ao bem, rompe o laço que nos une a Deus, a nós próprios e aos outros. Quando pecámos, algo de bom deixou de estar presente no mundo, houve amor que não foi vivido nem comunicado. O pecado coloca-nos numa situação em que estamos afastados do bem e do amor. Para regressar à comunhão com Deus, connosco e com os outros, necessitamos de tomar consciência que precisamos de mudar atitudes e fazer algo que mude o nosso estado de pecado e nos faça passar ao estado de amor. Pedir perdão é já um gesto de redenção, mudar o nosso coração e não querer ficar no mal, é também um gesto de redenção, que muitas vezes implica um sacrifício pessoal de superar feridas, de dar o braço a torcer, reconhecer que errámos, crescer na humildade. Deste modo, podemos dizer que a conversão e a redenção implica necessariamente um sacrifício, a morte do nosso egoísmo e do nosso pecado, para que a vida de Deus-Amor aconteça plenamente em nós.

O que é mais significativo na redenção cristã é que Deus tenha oferecido o perdão gratuitamente e sem medida. A iniciativa de Deus é oferecer o perdão através do facto de Ele mesmo se ter feito um de nós, ter vivido tudo o que vivemos, ter sofrido e, finalmente, ter morrido na cruz. Em Jesus, Deus oferece-se a si mesmo como o preço da nossa libertação do pecado. Poderemos dizer, de forma muito simplificada, que a morte de Jesus na cruz torna o perdão de Deus extremamente acessível, de uma vez para sempre. Então o que se espera da nossa parte? Poderíamos dizer que, se Jesus já pagou o preço do nosso pecado, então estamos já salvos. Isto é verdade, mas não completamente. É um erro presumir que estamos já salvos, fazendo tudo como se o pecado não nos afectasse e vivendo sem responsabilidade. Não é isto que Deus nos pede. Pelo contrário, o facto de sabermos que o perdão nos é constantemente oferecido, faz-nos mais exigentes connosco mesmos, e queremos retribuir com uma vida mais santa aquilo que Deus fez por cada um de nós. Ser amados deste modo transforma-nos, na medida em que queremos ser dignos desse amor e corresponder-lhe com fidelidade e entrega. Por outro lado, ser amados deste modo, também nos faz mais sensíveis à nossa falta de amor, temos uma maior consciência e dor do próprio pecado quando sabemos que estamos a ser pouco fiéis a quem muito nos ama. 

Deste modo, a redenção é o perdão posto à nossa disposição, é o perdão já acontecido, que exige de nós uma correspondência e fidelidade constantes. Por isso, fazer o bem e não pecar não é uma simples tentativa de ganhar o céu, mas uma consequência existencial do facto de sermos amados e perdoados. Se o preço da libertação do nosso pecado está já pago, o que nos resta fazer é viver de acordo com este dom enorme de Deus. Isto é exigente, mas Deus ama-nos deste modo, quer-nos responsáveis e com a capacidade de tomar nas mãos o nosso destino.

26 março 2010

Emoções

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Sugestão de dúvida

Apesar de a questão colocada ser longa e não ter sido toda escrita, não deixa de conter alguns tópicos muito interessantes que espero tocar da forma desejada. A relação das nossas emoções com as nossas recordações.

A emoção é um dos campos mais complexos da nossa vida. Têm relação com os sentimentos, que são algo que não controlamos, simplesmente as coisas tocam-nos de determinada forma e fazem eco em nós sem que possamos evitar. Sentimos atracção por algo que não nos faz bem, sentimos gosto em pequenas coisas que nos acontecem, vibramos com os mesmos sentimentos de um amigo. As emoções entram na nossa vida como uma consequência do facto de estarmos constantemente em relação com os outros e com o mundo.

Muitas vezes podemos correr o risco de pensar que não devíamos sentir determinada coisa, quando não é aí que está o problema. Uma emoção é sempre um despertar de algo que nos toca e nos sensibiliza. Porque nos faz desejar algo, nos faz completar algum aspecto de que sentimos falta. É, por isso, um convite a olharmos a nossa vida e percebermos o porquê de sermos tocados afectivamente por algo. Aquilo que nos toca é o que poderá significar o que realmente é importante. O trabalho que podemos fazer na análise dos nossos sentimentos é reflectir sobre o bem que estes trazem à nossa vida. Se nos orientam num caminho que achamos ser correcto, ou se nos estão a afastar dele.

Tenho a certeza que somos fruto de uma memória afectiva que nos vai formando como pessoas. Somos muito fruto dos sentimentos dos outros em relação a nós e também daquilo que sentimos em relação aos outros. Porque é raro que um sentimento fique fechado sem nenhuma reacção da nossa parte. Precisamos de comunicar o que nos vai na alma e manifestar com gestos concretos o que sentimos. 

Podemos lembrar-nos de muitas emoções, mas recordar-nos de poucas. As emoções têm muito de passageiro, são pontuais e vamo-nos lembrando de muitas coisas. As emoções que recordamos são aquelas que trazemos ao coração, que fazem parte de nós. A raiz de re-cordar (re-cordis) é precisamente fazer voltar a fazer passar pelo coração. Sentimos falta de memórias que nos façam reviver momentos importantes. Se "recordar é viver", talvez fosse melhor dizer que "recordar é voltar a viver", sobretudo se tornamos presentes os pontos que nos fazem crescer, escrevemos a nossa história a partir de certezas que nos fizeram e continuam a fazer como pessoas.


20 março 2010

A Paz de Cristo

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Como discernir a paz de Cristo? Este tema necessariamente será dirigido a quem já tem uma vida de fé e oração e pretende encontrar modos e critérios para descobrir esta paz que vem do encontro com Jesus.

Especialmente na oração, não há receitas infalíveis. Tal como, com os nossos amigos, temos um modo específico e particular de nos relacionarmos com cada pessoa, do mesmo modo, o encontro com Deus na oração é extremamente pessoal. Cada um terá de encontrar o seu próprio modo de rezar, de acordo com a sua sensibilidade, carácter, estilo de vida e circunstâncias. Há pessoas que rezam a partir dos acontecimentos da vida, ou a partir das leituras do dia, outras que preferem silêncio sem grandes palavras, outras que pedem luz para algumas decisões que têm que tomar.

Em todas estas circunstâncias, há algo comum que é importante ter em conta. O primeiro aspecto é que a oração consiste num encontro com Alguém que quer estar connosco numa relação de transparência, verdade, intimidade e amor. Não estamos diante de um juiz ou de um mago, mas de alguém que acolhe e ajuda a transformar, orienta tudo aquilo que temos de bom para um horizonte maior. O segundo aspecto é que a boa oração é uma graça que não depende só de nós. O desejo e o tempo que temos à disposição para a oração é essencial, mas os resultados da oração partem de Deus. E Deus tem os seus tempos e modos de se comunicar, que muitas vezes estão além das nossas expectativas. Esperar que a oração nos traga aquilo que queremos corre o risco de transformar o encontro numa espécie de mercado e retribuição, o que tira a gratuidade e a surpresa. A oração, por isso, é um encontro de disponibilidade para aquilo que for, um exercício completo de liberdade.

Um dos frutos da oração é a paz. E como fruto que é, devemos pedi-la constantemente. Não como um direito que temos, mas como disposição total de abertura a recebê-la. Receber a paz de Cristo não é criar um espaço de tranquilidade psicológica, que nos poderia fazer ficar numa ilha desligada da vida, mas receber a paz como dom que transforma o nosso ser e o nosso agir.

Vejo muitas vezes a necessidade que as pessoas têm de um espaço de paz e existem imensos locais que a propõem, do tipo da meditação transcendental baseada em métodos orientais. E isto é bom. Porém, também tenho visto que estas experiências correm o risco de criar o efeito de uma ilha de tempo e espaço desligada do resto. É um processo psicológico mais que um encontro. E quando se sai desta ilha, evita-se a todo o custo confrontar-se com as "más energias" dos outros, quando o óbvio seria que a paz que se tem fosse motor para afrontar tudo e todos num desejo de curar feridas e estabelecer relações de verdade.

A paz que vem de Jesus pode ser encontrada também num tipo de meditação com métodos orientais. É também o meu preferido, mas importa perceber antes que não é uma paz conseguida, mas uma paz recebida.  Quais são então os critérios que nos permitem discernir a paz que vem de Cristo?

É uma paz que cura as nossas feridas, porque é voz de perdão e acolhimento total da nossa pessoa. Quem se sente amado sem condições sai transformado, deixa para trás os bloqueios e acredita na própria vida como caminho concreto de bem. Quem tem esta paz não se isola do mundo, mas quer fazer aos outros a mesma experiência de perdão. Não condena facilmente, mas ajuda com verdade. A paz faz-nos estar centrados que as coisas que nos acontecem, por piores que sejam, não nos distraem do essencial, aprendemos a relativizar tudo e colocar cada coisa num projecto de crescimento.

É uma distância que aproxima e faz agir. Perante cada coisa, pergunto-me: e agora? Que possibilidade de amar me é dada? São as pessoas de paz que não desesperam, mas têm a força de encontrar soluções. Isto é um dom enorme, e o centro da qualidade da nossa Vida.

22 fevereiro 2010

Celibato

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Na altura em que surgiu este tema, recordo-me que era a propósito de um acontecimento muito falado nas comunicação social, em que um jovem sacerdote resolveu deixar o seu sacerdócio por se ter apaixonado. É inquestionável que o tema do celibato provoca muitas reacções, quer da parte de crentes, quer de não crentes.

O celibato é entendido pela Igreja como um sinal de consagração. Uma pessoa decide livremente entregar a sua vida a Deus e ao serviço dos outros, renunciando, não à sexualidade, mas sim ao seu exercício. Um consagrado não é um extraterrestre, é um homem ou uma mulher que vive a sua sexualidade e é chamado, como todos, a vivê-la de forma integrada e aberta à relação com os outros. Não se consegue viver sem afectos, nem a ninguém é pedido isso.

Uma coisa que creio que nunca fica clara é que se fala muitas vezes do celibato como uma imposição. O celibato é um convite a um determinado estilo de vida. Quem escolhe ser padre, ou religioso, sabe que o celibato faz parte da sua escolha e, na sua liberdade, opta por isso. Mesmo consciente da própria fragilidade e da possibilidade que não se possa alguma vez ser coerente com esse compromisso, a pessoa que escolhe ser célibe fá-lo com esse desejo. Uma pessoa que claramente vê que a sua realização pessoal e a sua missão não passa pelo celibato, não escolhe este tipo de vida. Do mesmo modo, a quem casa, não se lhe é imposta a fidelidade, mas é o ponto de partida básico da sua opção. Quem casa ou quem namora, quer verdadeiramente ser fiel, como base de uma relação autêntica e verdadeira. O que quero dizer com isto, é que o celibato nasce de uma opção livre e consciente das suas consequências, incluindo uma certa solidão. Tal como no casamento, se casa livremente e querendo ser fiel, consciente das suas consequências, de alimentar constantemente a relação, mesmo no meio das dificuldades, rotinas e cansaços.

Não quero estar a julgar o comportamento deste sacerdote, que só conheço a história por fora, ou de muitos religiosos que não são coerentes com a própria escolha. Importa é reflectir sobre o porquê de estas coisas acontecerem, se se deve à própria estrutura da pessoa ou falta de maturidade, a uma formação pouco atenta a estes aspectos, ou, a meu ver, a questão principal, o não cuidar o centro da própria vocação, que é a oração. Um padre ou religioso que não reze, não se poderá sentir totalmente apaixonado e centrado, enchendo de afecto de Deus o próprio coração. E sabemos todos como o coração precisa de estar preenchido e, se ficamos divididos nos afectos, acabamos por procurar outras coisas que preencham os nossos espaços vazios. 

Uma outra questão é sobre o porquê de a Igreja católica romana pôr o celibato como fazendo parte do sacerdócio. Esta indicação não é um dogma, nem algo impossível de poder mudar. Sabe-se, que nos primeiros séculos do cristianismo, existiam sacerdotes e bispos casados. Com o passar do tempo, por diversas circunstâncias da época, começou a crescer esta ideia de que o sacerdote devia ser célibe. Não existe uma data concreta em que isto se decidiu, foi um processo longo que a Igreja foi estabelecendo. Teria de escrever muito para explicar todas estas razões e, por isso, aponto-as brevemente e deixo a cada um a curiosidade de poder aprofundar.

Começa a desenvolver-se na mentalidade eclesial a consciência da consagração total a Deus, cuja modelo estaria sobretudo na vida eremítica e monástica, isto é, pessoas que deixavam as cidades para se retirar no deserto e nos campos para se dedicar à oração. Este modelo foi passando, pouco a pouco, também para o clero secular. Uma outra questão começou a ser a preocupação dos bispos nos casos de mau exemplo dos seus padres casados e também, numa altura em que a Igreja tinha poder político sobre diversos territórios, havia o problema da dispersão do património da igreja, por causa dos descendentes dos padres. São estes aspectos, misturados, que pouco a pouco criaram uma mentalidade de que o sacerdote teria de ser célibe e assim se estabeleceu a regra. Porque a Igreja não existe fora da história e experimenta, como todas as instituições humanas, a necessidade de se adaptar aos tempos e configurar o modo como se apresenta, mantendo o que lhe é essencial. 

O celibato, para além do aspecto central da consagração a Deus, tem, na Igreja, um carácter jurídico, isto é, o celibato faz parte do sacerdócio. Mas apenas na Igreja católica de direito romano. Na Igreja católica de direito oriental, em união com o Papa, os padres diocesanos podem escolher casar ou não. Os Bispos, porém, terão de ser célibes. Para poder aprofundar esta questão da igreja católica de rito bizantino (oriental), aconselho a leitura de um texto publicado há tempos, por um companheiro jesuíta, no essejota.net. Por outro lado, os religiosos vivem sempre o celibato, porque professam os votos religiosos de pobreza, castidade e obediência. Os padres diocesanos prometem viver a castidade, mas não tem o mesmo valor jurídico de um voto. Contudo, o essencial da castidade é vivido seja por padres diocesanos, seja pelos religiosos.

Uma última coisa, sobre a possibilidade de que os padres - diocesanos - possam vir a casar. Poderá ser, mas ainda é necessário um tempo de amadurecimento da questão e sobretudo ver se a mentalidade eclesial vai nesse sentido. Uma coisa que é óbvia na mentalidade ocidental, pode não o ser numa outra cultura. Uma lei da Igreja terá de ter em conta a diversidade das culturas onde está inserida, e uma mudança do género teria de vir acompanhada de uma aceitação pacífica e desejada por todos. Se, neste momento, o celibato dos padres fosse abolido, seria aplaudida por muitos, mas também não aceite por muitos. A meu ver, não seria uma questão pacífica na igreja universal, e é necessário que uma mudança sirva para congregar a todos numa única direcção e não para dividir e criar roturas. Mas certamente é uma questão que importa ser repensada e aprofundada.

15 janeiro 2010

O preço da caridade

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Vou centrar este tema naquilo que se entende por Caridade. É uma das três virtudes mais importantes, para além da fé e da esperança. Uma não se entende sem as outras. A caridade tem como seu fundamento o amor que se vive em Deus, na Trindade, que expliquei num outro tema. Este amor é a entrega de toda a vida a quem se ama. Na nossa vida concreta, temos exemplos disso, quer no matrimónio, quer nas nossas relações mais profundas. O outro é de tal modo importante que pautamos a nossa existência de acordo com o bem e a felicidade de quem amamos.

Talvez tenhamos uma ideia da caridade que não é adequada, que é sermos bonzinhos. Daí que pensemos muitas vezes nos Santos como pessoas ingénuas ou incapazes de fazer o mal a uma mosca. Quando, das histórias que conhecemos, surgem-nos modelos de uma fortaleza interior e coerência de vida que nos devem desafiar. Muitas vezes, corremos o risco que, em nome da caridade, façamos silêncio ou nos desviemos de confrontos. Mas a caridade tem uma face de grande transparência e frontalidade. A caridade é verdade. Por isso, não podemos deixar de ser críticos em relação à injustiça e ao mal.

É impossível que nas nossas relações mais profundas não haja um momento em que confrontemos as pessoas, ou essas nos confrontem, com a própria fragilidade. Mas o que está por detrás não é um sentimento de superioridade, mas um desejo de autenticidade nossa e do outro. Quem ama, não tem medo das consequências, porque sabe que o amor tem a última palavra. Quem ama acredita (tem fé) e confia (tem, esperança) no outro.

O discernimento segundo o amor está numa fronteira entre olhar o outro como um mundo de bem a realizar ou como alguém a transformar à minha medida. Ao acreditar que determinada pessoa pode mudar as suas atitudes, quando este é amado, a forma de o expressar nunca será um ataque, mas um apelo à própria verdade. Na caridade existe esta transparência e esta paciência. Não se desiste à primeira, mas procura-se de todos os modos, e no tempo que for necessário, que haja alguma transformação.

Não desistir é a atitude de quem ama. Só estes podem mudar o mundo e as pessoas. Quando desistimos, fazemos do outro uma parte do nosso mundo que já não vale a pena estar atento. Mas não é este o modo de amar de Deus. Tudo é importante, e na sabedoria do coração, devemos respeitar os ritmos e sobretudo acreditar que o outro tem um valor inestimável. Daí, que o amor seja coerente, paciente e profético, no sentido em que não instrumentaliza o outro segundo as minhas expectativas, mas o aceita como é e, sobretudo como pode vir a ser.

Este será o preço da caridade, sair do comodismo e entrar num mundo de acção que verdadeiramente transforma. Muitas vezes sem resultados evidentes, mas no mundo das relações nada é previsível, só o amor pode dar alguma continuidade ao que pode vir a acontecer.

06 janeiro 2010

Bênção

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Lembro-me de os meus pais me contarem que nunca saiam de casa de manhã, para ir à escola, sem pedir a bênção aos meus avós. Parece hoje uma coisa distante, nunca me passou pela cabeça fazer o mesmo. Entretanto, este gesto de bênção ficou reservado para ocasiões especiais dentro da Igreja, feita pelo diácono ou sacerdote. De todos os modos, num caso ou noutro, a bênção consiste em transmitir algo de parte de Deus, que é o Bem que Deus faz no mundo e nas pessoas. Pode ser entendido como a afirmação de que a força de Deus acompanha, e faz-se desejo disso.

É importante distinguir várias coisas quando se fala de bênção.

Cada cristão é capaz de abençoar, bendizer. Através do Baptismo, recebemos o Espírito Santo e nas palavras e nos gestos de bênção queremos comunicar a predilecção de Deus, e nossa também, por uma pessoa. Bendizer é dizer-bem, em palavras e gestos. Queremos transmitir a presença e o amor de Deus, através do Espírito que está em nós, a quem amamos. É um cuidado espiritual pelos outros que nos faria bem ter mais presente. Cada vez que dizemos ou fazemos bem a alguém, poderíamos ter a consciência que estamos a abençoar e que o amor de Deus chega à outra pessoa.

O outro aspecto da bênção é, digamos assim, mais "oficial", feita por quem é ordenado no ministério da Igreja, diáconos, padres e bispos. Quem é ordenado recebe o Espírito santo através da imposição das mãos. Este gesto vem já desde o início do cristianismo em que os Apóstolos impunham as mãos aos que ficavam à frente das várias comunidades cristãs que nasciam. Este gesto, repetido continuamente ao longo da história e das várias gerações, garante a chamada Sucessão Apostólica, isto é, quem é hoje ordenado, participa desta cadeia que começa com os Apóstolos, através do gesto da imposição das mãos.

Este pormenor ajuda a situar o tema da bênção por parte de quem é ordenado. A bênção não é um ritual de magia, mas sim a comunicação do Amor de Deus aos outros. Na bênção de um sacerdote transmite-se à pessoa a herança espiritual da Igreja, e os dons do Espírito Santo que a pessoa tem mais necessidade.

Sabemos que, além da bênção às pessoas, também se podem abençoar objectos, sejam eles os de devoção (imagens, rosários), casas, carros, as fitas no fim do curso, e até animais. Mas a bênção é sempre dirigida às pessoas, não às coisas. Abençoar objectos significa que, através deles, a vida do cristão é santificada em todas as suas dimensões. Porque não somos apenas espírito, mas sim carne, é através do nosso quotidiano que se realiza o bem que fazemos no mundo e aos outros. Estas bênçãos apenas nos ajudam a cair na conta da importância do uso das coisas para a nossa santificação e sustento, em louvor e agradecimento.

A bênção e o gesto de bênção podem ser, por isso, um movimento espiritual que nasce da própria fé e que se entrega gratuitamente e amorosamente às pessoas e situações que são importantes para nós. O gesto de abençoar não pode estar desligado daquilo que somos e queremos. Viver numa atitude de bênção é olhar positivamente para todas as coisas e realizar em tudo o Bem que Deus, através de nós, quer fazer presente.

 

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