17 dezembro 2009

Comprometer-me

1 comentários





O que significa um compromisso?
Compromisso, na sua raiz latina quer dizer: con-pro-missum, isto é lançar, enviar para a frente juntamente com alguém. Missum é também raiz de missão, enviado. Podemos dizer que um compromisso é qualquer coisa que se faz entre duas ou mais pessoas, ou entre uma pessoa e uma instituição, que diz respeito ao futuro e corresponde a um envio, a uma missão ou, mais concretamente, a uma pro-messa.

Um compromisso, por isso, deve implicar a própria pessoa, na medida em que é esperado algo das suas acções e atitudes no futuro. Ela aceita realizar determinada coisa e ser fiel a isso.

Num compromisso, estão em jogo a verdade de uma pessoa, a sua liberdade e o respeito que tem por aquilo que assume. É algo que pede coerência. Mas claro que existem muitos níveis de compromisso. Uma coisa é comprometer-se a ajudar uma vez por mês durante um ano numa instituição de solidariedade, ou comprometer-se a fazer bem um exame, outra é fazer votos religiosos ou querer casar. Aí temos uma primeira separação entre compromisso temporário e compromisso definitivo.

Há porém, alguns aspectos que não é possível fazer compromissos temporários: não é possível ser amigo ou estar apaixonado a prazo. Pelo menos, nas atitudes e desejos iniciais. Porque temos todos experiências de como há amizades e paixões que deixam de o ser, pelos mais variados motivos, mas ao início não seríamos verdadeiros se quiséssemos ser amigos por dois ou três anos. Não faz sentido.

Um compromisso temporário, na minha opinião tem a ver com aspectos que pedem de mim algo durante um tempo específico, mas que não causa dano quando terminar esse tempo. É uma questão de saber e sentir se esse compromisso faz parte de mim e implica outras pessoas de forma irreversível.

Agora, uma coisa que une quer o compromisso temporário, quer o compromisso definitivo, é que devo estar presente naquilo a que me comprometi. Por ser um compromisso temporário, não quer dizer que esteja presente só uma parte de mim, a mais eficaz ou a menos sensível. Em tudo podemos manifestar a nossa beleza e a nossa verdade e é uma pena que vivamos um compromisso como uma tarefa. Se eliminássemos da nossa vida a palavra tarefa e a substituíssemos por compromisso, mesmo que temporário, o nosso tempo oferecido a determinada causa teria uma outra qualidade. Em tudo ser mais, em tudo ser eu mesmo. É um grande desafio ao modo como vivemos cada coisa.

08 dezembro 2009

A amizade

0comentários




A amizade é dos dons mais preciosos que podemos ter na Vida. Se todos, mais ou menos, temos um medo existencial muito profundo da solidão, são os amigos que vêm preencher esse espaço. Contudo, os amigos, sabemos bem, não servem só para satisfazer os nossos desejos de termos alguém com quem desabafar e partilhar as coisas mais importantes.

O elemento mais importante da amizade é a gratuidade. Não escolhemos os nossos amigos, as amizades profundas simplesmente acontecem, ficamos ligados a elas, fazem parte de nós. Começamos com pequenos episódios comuns, que fazem nascer sintonias de fundo e algumas certezas de que determinada pessoa é um espaço onde eu me manifesto de forma autêntica.

A amizade não dá lugar a medos e calculismos. É o espaço onde cada um existe como é, com qualidades e defeitos. A determinado momento, os próprios defeitos entram na relação e podem provocar conflitos. É o momento em que aparecemos na nossa verdade e na nossa fragilidade. E é nesse momento que a amizade se purifica. Não há verdadeiros amigos se pelo menos uma vez não se tiverem zangado. Então, aí se faz a experiência que eu te aceito, que quero o teu bem e que não vou desistir de ti. Só o ser amado pode transformar e mudar atitudes menos correctas. E este acolher-transformar acontece de parte a parte, cada um cresce no melhor que tem e integra os próprios defeitos, porque existe por trás uma verdade baseada no amor. É uma experiência muito profunda.

Tenho a sorte de ter amizades assim. E que não são muitas, porque as amizades que verdadeiramente transformam não podem ser muitas. Mas cresci e fiz crescer em aceitação, beleza e transformação da própria bondade num desejo de ser autêntico e feliz. É algo que tenho a certeza que nunca se perde, mesmo estando longe e falando de vez em quando... como se cada encontro tivesse acontecido ontem, é uma vitalidade fresca e feliz.

Há também amizades que chamamos assim, mas que, no fim de contas, não chegam à profundidade do que é a amizade. Ser amigo é algo sério, não é uma necessidade de companhia, é estar disponível sempre e com liberdade. Quando uma relação não nos deixa ser verdadeiros, quando deixamos de ser autênticos, então é um caminho incompleto ou mal começado. Possuímos ou somos possuídos, fazemos papéis que não nos servem e não falam de nós. Há sempre um modo de poder fazer destas relações uma amizade profunda, mas nestas coisas do coração, ou acontece ou não acontece. Nesse caso, a estima e o respeito são uma boa atitude. Mas nunca a mágoa e sempre o perdão. A Vida é complexa =)

05 dezembro 2009

A Trindade

0comentários



No meu primeiro ano em Roma fiz um curso de um semestre só sobre a Trindade. Daí que é um tema tão complexo que não é fácil, em poucas linhas, falar dele. Contudo, deixo algumas ideias de como entrar neste mistério, que de isso se trata. Como é mistério, é algo que, por mais que se explique, fica sempre por dizer algo. É nada mais, nada menos, que dizer quem é Deus, um só Deus que é três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Além disso, se se fizesse um questionário à porta das nossas igrejas, perguntando o que é a Trindade, estou certo que poderiam ouvir-se muitas "heresias". Espero que fique mais claro o que significa este mistério tão essencial da fé cristã.

A formulação do dogma da Santíssima Trindade tem uma evolução lenta, desde o início do Cristianismo. Desde os escritos do Novo Testamento que os cristãos estavam familiarizados com este tipo de expressões por parte de Jesus; "Quem me vê, vê o Pai", ou "Baptizai todos os povos em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo", ou "O Verbo se fez carne e habitou entre nós", entre muitas outras. A grande questão que se punha é qual a natureza de Jesus: se Jesus, que viveu entre nós, morreu e ressuscitou, é o Filho de Deus, então Jesus é Deus. E se Jesus continua presente no mundo através do seu Espírito, este é o Espírito de Deus, e também é Deus.

Vindos de uma religião monoteísta, os cristãos continuam a afirmar a sua fé no Deus Único. O mesmo Jesus expressa a sua fé neste Único Deus. E pouco a pouco, foi ficando mais claro que o Deus dos cristãos era estas três pessoas. Um único Deus, que é Pai, que é Filho e que é Espírito Santo. Na Trindade as Pessoas não se confundem nem se distinguem. Daí que o modo mais apropriado para falar deste mistério é de modo negativo: sem confusão e sem distinção das três pessoas divinas.

Não vou entrar em muitos pormenores mais teológicos difíceis de explicar, mas faço uma abordagem que talvez seja mais fácil perceber. Jesus, segundo o Evangelho de João é o Logos de Deus, ou seja, a Palavra, a Razão, tudo o que Deus exprime e deseja. Por isso, o Logos não está separado do Pai. Do mesmo modo, o Pai só é Pai porque tem o Filho e o Filho só é Filho porque tem o Pai. O Pai dá-se totalmente em Amor ao Filho e o Filho dá-se totalmente em amor ao Pai. De tal modo este Amor é forte que é ele próprio uma Pessoa, o Espírito Santo.

Assim, a Trindade é um Deus de relação, em que o Pai e o Filho são um Único amor recíproco, e esse amor de comunicação um ao outro é o Espírito. O Espírito Santo não fica limitado apenas a esta relação, mas da Trindade comunica-se o Amor de Deus ao mundo, através da criação, e a cada um de nós. Na Encarnação, o verbo de Deus assume a nossa natureza e a nossa história, como Deus não poderia deixar de fazer. Apenas um Amor tão absoluto consegue fazer com que Deus viva a nossa própria história, para nos fazer participar, pelo Espírito, da sua mesma Vida.


01 dezembro 2009

Advento

0comentários




Advento, como se sabe, são quatro semanas que antecedem o Natal. É um tempo forte dentro da liturgia da Igreja e é muito útil que se possa ir ao fundo desta proposta, para que o Natal tenha uma outra força.

Talvez o grande problema da pouca novidade que o Natal nos pode trazer - não só porque há dois meses a televisão e as lojas já se encarregaram de nos lembrar disso - é o facto que a festa pode ser uma rotina. Preparar o Natal é pensar nas prendas e dinheiro para as comprar, os convites e lugares da festa de família, participar nalguma acção de solidariedade, etc etc. Chega o dia, e passa... para o ano há mais.

O Tempo do Advento prepara em nós disposições de outro género. Faz-nos voltar para o interior, as nossas atitudes, mais que as coisas práticas a cumprir. Seria necessária uma consciência de que algo nos falta, para que, quando se celebra o Natal, aconteça uma Presença que ilumine e dê Vida. De facto, se virmos bem no Evangelho, o Menino Jesus não nasceu numa casa, pois estavam todas cheias e teve de nascer num lugar bem mais solitário. Corremos o risco de ter a nossa casa e o nosso coração tão cheio de embrulhos e luzes que o Menino não tem espaço para nascer!

Então, o tempo de Advento pode caracterizar-se por esta dimensão fundamental da espera. Quando esperamos, o que acontece em nós? Esperamos algo que não temos, e é precisamente a espera que dá alegria ao momento em que obtemos o que esperávamos.Todos temos imensas histórias que poderiam dar exemplo disso. Quando se espera, deixa-se o presente para centrar energias num futuro que é uma promessa feliz. Organizamos o nosso tempo para esse encontro, sonhamos com ele. Deste modo, o Advento faz-nos sair de um quotidiano sem muitas surpresas e ajuda-nos a procurar e encontrar aquilo que mais desejamos.

O Natal é a celebração do nascimento de Deus que se faz Homem. Deus que entra na nossa história, não de uma forma espectacular, mas através de uma criança recém-nascida. E não poderia ser de outra maneira, já que a predilecção de Deus por cada um de nós terá de se manifestar na forma mais concreta e próxima possível. É diante do presépio que percebemos a força da fragilidade de Deus, que se põe totalmente à nossa disposição, fazendo-se convite a acolher e adorar.

Podemos acolher esta novidade contínua de Deus, que se renova em cada Natal, de acordo com a nossa situação concreta, porque cada ano acontecem coisas diferentes e Deus entra na minha história com uma promessa e uma alegria diferentes. A grande pergunta é: onde quero que Jesus nasça? Onde quero que Deus esteja na minha história, aqui e agora?

O Advento é o tempo de preparar estas perguntas e, para isso, apresenta-nos duas figuras, que correspondem a duas atitudes:

João Baptista e a atitude de conversão. Olhar para nós mesmos, percebermos onde o nosso caminho se tem desviado do bem que sabemos e queremos para a nossa vida. A conversão não é lamento, mas orientar a nossa vida na direcção certa, comprometer-me com a minha verdade e a minha liberdade.

Maria e a atitude de entrega. Nossa Senhora aceita o convite do Anjo para ser Mãe de Jesus, sem perceber tudo, sem conhecer o que realmente estaria a acontecer. Mas é movida por uma extraordinária confiança. Se é Deus que me pede isto, quem sou eu para dizer que não? Faça-se... é o gesto mais perfeito da humanidade que é capaz de acolher Deus.

Se pudermos viver este Advento a partir destas ideias, o Natal será tudo menos uma rotina. Poderá nem ser a festa extraordinária que tivémos o ano passado, mas se a nossa esperança for completa, então o Natal significará um verdadeiro nascimento para uma Vida mais completa e autêntica.

 

Temas © 2010

Blogger Templates by Splashy Templates